quinta-feira, 5 de maio de 2011

Exposicao Hereros Angola de Sergio Guerra no Museu Afro Brasil

Pouquíssimas pessoas conhecem tão bem Angola quanto o fotógrafo pernambucano Sérgio Guerra. Responsável pela comunicação do governo angolano, há quase 15 anos ele vive na ponte-aérea Salvador-Luanda. Daí nasceu uma relação de amor profundo com o país africano, dando origem a um dos mais completos registros fotográficos das 18 províncias angolanas e de suas populações, o que resultou em cinco livros. O mais recente, Hereros, é aquele no qual Guerra aprofunda seu olhar sobre a cultura daquele país e a matéria prima para a grande e inédita exposição ‘Hereros Angola’, com cerca de 100 fotos selecionadas pelo artista plástico e curador Emanoel Araujo.

Após ter sido realizada em Luanda e Lisboa, em 2009, com ampla repercussão, a mostra Hereros Angola ganha novos contornos e dimensão maior para exibição em São Paulo. Sérgio Guerra realizou mais viagens ao deserto do Namibe, produziu novas fotos, fruto do estreitamento das relações com os Hereros.  Além das fotografias, em diversos formatos, algumas plotadas em grandes formatos, a mostra inclui uma cenografia que reúne vestimentas, adereços e objetos de uso tradicional e ritualístico da etnia. Hereros – Angola traz ainda vídeos de depoimentos colhidos entre os sobas (líderes), mulheres e jovens sobre a sua cultura e a forma como encaram a vida. Parte integrante da mostra são cantos ritualísticos captados entre estes povos. O repertório de imagens, depoimentos e sons reunidos levarão o expectador ao universo  destes pastores de hábitos seminômades, que são exemplo da perpetuidade e resistência de uma economia e cultura ancestrais ameaçadas pelo acelerado processo de modernização e ocidentalização dos países africanos.   

A realização da mostra em São Paulo, no Museu Afro Brasil, ao tempo em que homenageia Angola de forma peculiar, fecha a triangulação entre África, Portugal e Brasil, bases da formação cultural do povo brasileiro.
 
O autor -  Fotógrafo, publicitário e produtor cultural, Sérgio Guerra nasceu em Recife, morou em São Paulo e no Rio de Janeiro, até se fixar na Bahia nos anos 80. A partir de 1998, passou a viver entre Salvador, Rio de Janeiro e Luanda, onde desenvolve um programa de comunicação para o Governo de Angola. Em suas constantes viagens pelo país, testemunha momentos decisivos da luta pela paz e reconstrução, constituindo um dos mais completos registros fotográficos das 18 províncias angolanas.






Fontes: Museu Afro Brasil - Central RockNet - Portal I-Bahia
Pesquisa e montagem: Oubí Inaê Kibuko

sexta-feira, 29 de abril de 2011

29/04/2011 - Palestra com Samba Gadjigo sobre Ousmane Sembene na PUC-SP

CONVITE

O Centro de Estudos Culturais Africanos e da Diáspora-CECAFRO/PUC-SP, dando continuidade às suas atividades neste semestre, tem o prazer de convidar para a palestra  “África na perspectiva do cineasta Ousmane Sembène”, com o escritor, crítico,documentarista e professor SAMBA GADJIGO (Senegal).

Nesta sexta-feira, 29/04, na PUC-SP
Sala 500, Prédio Novo.
Das 19:00 às 21:30

Conheça um pouco mais o Prof. Dr. SAMBA GADJIGO
Crítico, escritor, documentarista e professor de Francês e Literatura Africana na Universidade Mount Holyoke, em Massachusetts/EUA, o senegalês Samba Gadjigo é titular em Letras Modernas pela Universidade de Dakar (Senegal) e Ph.D pela Universidade de Illinois (EUA).

 Ao longo dos últimos anos tem se dedicado à pesquisa e divulgação da biografia e obra do cineasta senegalês Sembene Ousmane, considerado o pai do Cinema Africano. Gadjigo é autor de obras referenciais para a compreensão da estética de Sembene, a exemplo dos livros Ousmane Sembene, une conscience africaine (autor, 2007); Ousmane Sembene: Dialogues with critics and writers (co-editor, 1993), além de documentários sobre a filmografia do cineasta como The Making of Moolaade (2005).

Na útil expressão de Gadjigo, Sembene Ousmane é um “notável desconhecido”, pois apesar da sua importância e pioneirismo para o Cinema Africano muitos aspectos de sua vida e obra ainda são desconhecidos, sobretudo no Brasil e na América Latina. É lícito dizer que reside aí o interesse do estudioso em divulgar as obras de Sembene pelo mundo afora, uma vez que isso possibilita um diálogo mais estreito entre a África e as demais nações.

Nesse sentido, a ideia de promover tal atividade na PUC/SP é uma forma de ampliar estes debates que, até então, têm se restringido a algumas poucas instituições e espaços acadêmicos ou universitários.

Clique na imagem abaixo e veja um video de Samba Gadjigo sobre Ousmane Sembene:

Se não conseguir visualizar clique aqui: Samba Gadjigo Honours Ousmane Sembene

quarta-feira, 27 de abril de 2011

CUT realiza 1º de Maio Brasil-África

A CUT-SP vai comemorar o 1º de Maio – Dia do Trabalho – deste ano com um tema inédito: as relações Brasil e África. A data será comemorada pela CUT/SP com várias atividades que serão realizadas a partir da última semana de abril e incluem um seminário internacional, oficinas culturais, exposição de livros, obras de arte, exibição de filmes, apresentação de manifestações culturais afro-brasileiras, gastronomia e ato inter-religioso privilegiando as religiões de matriz africana.

Esses eventos culminarão com uma grande manifestação na data de 1º de Maio, que será realizada no Parque da Independência, no Ipiranga, em São Paulo.

“A proposta é ir além da tradicional confraternização entre os trabalhadores que, evidentemente, é importante. Mas dar um primeiro passo para a reflexão sobre nossa condição de país afro-descendente. Somamos, hoje, mais de 90 milhões de afrodescendentes, segundo dados do IBGE, e essa consciência ainda não está presente na totalidade de nossa população. Além disso, os países africanos, que estão na raiz de nossa origem, são pouco conhecidos em sua dimensão histórica, institucional, econômica, social e cultural”, afirma  Adi dos Santos Lima, presidente da CUT/SP.

Neste 1º de Maio de 2011, a CUT quer chamar a atenção e mostrar um pouco da riqueza que constitui a matriz africana no Brasil e a importância das relações com os trabalhadores e a população dos países desse continente.

Os países que participarão das comemorações do 1º de Maio são: Togo, Zimbábue, Nigéria, Senegal, Cabo Verde, África do Sul, Gana, Benin, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, e Brasil. As nações africanas foram convidadas obedecendo ao critério de relacionamento entre as centrais sindicais e a CUT e também ao fato de algumas integrarem a comunidade de língua portuguesa.

É importante lembrar, ainda, que 2011 foi estabelecido pela Assembleia das Nações Unidas como o “Ano Internacional do Afrodescendente”, com o objetivo de “homenagear os povos de origem africana em reconhecimento à necessidade de se combater o racismo e as desigualdades econômicas e sociais. É também um reconhecimento pela enorme contribuição cultural e econômica dos descendentes de africanos em todo mundo”, diz o documento da ONU que oficializou  o tema.

O Brasil vem registrando muitos avanços na superação das desigualdades étnico-raciais, em especial em relação à população afrodescendente. Um passo importante foi a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial no ano passado. Mas, ainda há um caminho longo a percorrer. Um exemplo são as estatísticas que colocam o jovem negro entre as principais vítimas da violência no país. De cada três pessoas assassinadas no Brasil, duas são negras, revela o Mapa da Violência 2011, elaborado pelo Instituto Sangari, com base nos dados do Ministério da Saúde.

A Lei 10.639/2003, que obriga o ensino da história geral da África e sua contribuição para a cultura brasileira nas escolas públicas e particulares do ensino médio e fundamental, ainda  falta ser implementada, seja por falta de informação, interesse ou preconceito.

“Ao mesmo tempo, os países africanos tem sede de conhecimento sobre o Brasil e vêem com muito interesse o estreitamento de relações em vários campos de atividade. O Brasil tem hoje mais de 30 embaixadas e representações nos países africanos. Muitos desses países que enfrentaram situações de conflitos em passado recente as superaram, a exemplo do apartheid na África do Sul e guerras coloniais e  hoje aspiram ao desenvolvimento e a uma política voltada para o bem-estar das populações, passando pela organização dos trabalhadores e trabalhadoras”, observa Artur Henrique, presidente nacional da CUT.

“Os caminhos para a África são amplos e esses povos aspiram a uma cooperação solidária com nosso país e nossos trabalhadores. E é importante lembrar que a história das relações entre o Brasil e a África, embora tenha sido marcada em seu início pela diáspora e o tráfico de escravos, tem uma ancestralidade que ainda pouco conhecemos e é referenciada hoje por relações dinâmicas, principalmente econômicas e culturais que queremos estreitar, em especial com os trabalhadores desses países”, completa Adi.

Fonte e programação completa: Hotsite 1º de Maio CUT Brasil-África 2011

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cine Afro Sembene Apresenta: Rastros, Pegadas de Mulher dia 16/04/2011



RASTROS, PEGADAS DE MULHER (Traces, empreintes de femmes), direção de Katy Léna Ndiaye. Documentário, 52 min.  Coprodução: França/Bélgica/Burkina Faso/Senegal, 2003, legendas em português. Classificação: 12 anos.

Sinopse: As pinturas murais das mulheres kassenas de Burkina Faso, perto da fronteira com Gana, são famosas pela beleza do traçado e pela harmonia de cor. Interessada no assunto, Katy Léna Ndiaye escolhe comparar tradição e modernidade, através do retrato de três anciãs e da "neta" que elas iniciam nas técnicas ancestrais. Ela realiza um filme com maestria estética, verdadeiro retrato de uma comunidade artística, por onde se discute a transmissão de ensinamentos, a educação e a memória numa África em mutação.



Sobre a diretora:

Katy Léna Ndiaye nasceu no Senegal em 1968, mas chegou à França, onde seus pais se instalaram, muito jovem. Há dez anos trabalha na Bélgica, em Bruxelas, onde exerce a profissão de jornalista. "Rastros, pegadas de mulher" é seu primeiro filme.






Local: CECISP – Centro Cineclubista de São Paulo
Rua Augusta, 1239, conj. 13 e 14 – São Paulo
Próximo a Avenida Paulista - Metrô Consolação
Horário: 19 horas - Entrada Franca

Informações: (011)3214-3906
http://www.centrocineclubista.blogspot.com
http://www.cineafrosembene.blogspot.com

Realização: Forum África

Colaboração:

quarta-feira, 23 de março de 2011

Semana de Cinema e Cultura Africana no CEU Lajeado

O Centro Educacional Unificado (CEU) Lajeado, na zona leste de São Paulo, irá realizar a Semana de Cinema e Cultura Africana, em homenagem ao Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes, comemorado em 2011.

    A semana irá contar com a apresentação de filmes do cineasta Sol de Carvalho, um moçambicano que já fez diversos longas e curtas-metragens que abordam a realidade africana, relatando problemas enfrentados por alguns países.

    As apresentações terão início na segunda-feira (21), quando se comemora o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Descriminação Racial, e serão encerradas no dia 25 de março. Os filmes serão exibidos todos os dias, às 19h30, no Teatro CEU Lajeado, e após as sessões serão discutidos os assuntos de cada película, como racismo, exclusão social, educação e corrupção.

    Confira abaixo a lista de filmes exibidos:

    - Rodas de rua
    - Quando o mar bate na rocha
    - Garras e dentes
    - Pregos na cabeça
    - Muhipiti Alima
    - Maria a empregada - após a exibição haverá uma conversa sobre o filme com Vanderli Salatiel, coordenadora do Cine Afro Sembene e Fórum África
    - O jardim do outro homem

    O CEU Lajeado fica na rua Manuel da Mota Coutinho, 293 – Lajeado. Para assistir aos filmes, agende a visita no número 3397 6954.

 

Entrevista com Sol de Carvalho

 por João Teixeira

Num país onde um bilhete de cinema pode custar 10% do salário de um trabalhador, Sol de Carvalho realizou “O Jardim do Outro Homem”, a primeira longa-metragem do cinema Moçambicano em 20 anos. Conta a história de Sofia, uma jovem que se esforça por perseguir o sonho de estudar Medicina, tendo para isso de enfrentar a corrupção e a chantagem de um professor que a obriga a uma relação sexual não-protegida em troca de um resultado positivo num exame. Não sendo necessariamente um filme sobre a SIDA/HIV, “O Jardim do Outro Homem” pretende reflectir sobre a relação entre a cultura e o subdesenvolvimento, nos seus vários aspectos.
Sol de Carvalho nasceu na Beira e persiste em viver e trabalhar em Maputo, sendo este o 3º filme de ficção do cineasta, que lançou igualmente uma curta-metragem intitulada “A Janela” e “Terra Sonâmbula”, este último baseado no romance do escritor moçambicano Mia Couto.
Em entrevista exclusiva a “CulturaPALOPsPortugal.comSol de Carvalho reflecte sobre os vários aspectos da cultura e a sua contribuição para o desenvolvimento, bem como a estética que caracteriza o cinema moçambicano:
“Vejo a cultura de forma bastante diferente que outros, nomeadamente o poder. Por exemplo, estou a trabalhar agora num projecto que envolve o cinema relacionado com a SIDA (AIDS). Temos já um grau de infecção nacional bastante grande, de cerca de 20%, e o problema desse combate, onde eu próprio, como cineasta, também estou envolvido, é nada mais nada menos que o problema da cultura. Tem a ver com a maneira como as pessoas se comportam nos relacionamentos sexuais, familiares, etc. Por este exemplo, pretendo explicar a razão porque entendo a cultura não como um “departamento” do desenvolvimento, mas seria a própria concepção do desenvolvimento. A cultura seria aquilo que poderia indicar as linhas-mestras, os caminhos, criar a base. Infelizmente, nos outros PALOP a situação não é muito diferente. A cultura está muito associada a apenas uma das suas manifestações, que é a arte. Cultura é comportamento humano; a arte é apenas uma parte desse comportamento, a transfiguração do real que fazemos como artistas. Em países acabados de sair da guerra, como Moçambique, Angola, etc., mesmo esse lado da arte infelizmente é ainda muito incipiente. Mas existem manifestações extremamente interessantes e nesses contextos tão adversos; existem erupções tão fortes como a do vulcão da Islândia. Coisas que arrebentam assim de vez em quando, quer no cinema, quer na dança moderna, quer na pintura…”

“O Estado faz, a nível cultural, o papel de preservação – toma mais conta das coisas que são tradição. A nossa função, como artistas, é desbravar os caminhos novos, que não são muito apoiados pelo Estado. Não há apoio à inovação, à pesquisa, à descoberta de novos caminhos”.

“Na nossa ‘desgraçada’ arte do cinema, temos agora muito recentemente a Escola de Cinema. E foi uma geração que vem do tempo do Samora Machel, numa altura em que o país se propunha ser socialista e essas ideias, quando não havia televisão, e o poder tinha a percepção de que precisava de um veículo para comunicar com as pessoas, e esse veículo seria o cinema. Foi criada uma estrutura muito forte, o Instituto Nacional de Cinema, que tinha uma série de equipamentos antigos e que produzia em película. Foi aí que eu e praticamente toda a geração dos cineastas moçambicanos que hoje têm algum nome, nascemos. E esse é o nosso problema. Só agora estamos a começar com uma geração nova, que trabalha com vídeo e faz algumas experiências novas. Devido à forte aposta do Estado de então, essa geração criou também um importante grupo de técnicos. Temos também a vantagem de estarmos ao lado da África do Sul, que tem também bastante equipamento. Por exemplo, Flora Gomes (Guiné-Bissau) está agora a filmar em Moçambique. Há pouco tempo, 3 cineastas dos PALOP participaram num Festival Pan-Africano da Argélia, intitulado “África visto por”, em que convidaram 12 cineastas, entre eles Flora Gomes, Zézé Gamboa (Angola) e eu. E os 3 filmes foram feitos em Moçambique! Flora Gomes voltou a Moçambique e está agora a filmar com Danny Glover. Licínio Azevedo, brasileiro-moçambicano, já está em Moçambique desde 1975, tem prémios de várias partes do mundo, e está também a filmar ficção em Moçambique… Moçambique tem algum peso neste circuito”.

“Mas não conseguimos ainda encontrar a CPLP! Há passos, há caminhos, várias pessoas têm tentado fazer festivais, etc., e espero que o FESTin possa ser um kick-off para isso. É nestes festivais, nas conversas de café, que se tem de começar a falar destas coisas, das co-produções e dos trabalhos… de facto não há maneira de construir cinema da CPLP se não se construir pela base, com estes projectos em conjunto, estas pontes… estamos a lançar alicerces, vamos ver se os blocos ficam lá e a gente consegue construir as pontes”.
“Procuramos sempre encontrar estéticas e maneiras de tratar o cinema que tenham a ver com a nossa realidade. Os temas recorrentes são os da democracia, da pobreza, do desenvolvimento, etc., mas é preciso trabalhá-los no sentido de conseguirmos fazer um filme e não um panfleto político. Nós trabalhamos com recursos locais, em termos de representação. Muitas vezes temos actores no meio da multidão, em que só eles sabem que estão a ser filmados. E isso também cria uma estética própria, uma visão das coisas. Por causa da capulana e das roupas, temos cores de contraste muito fortes, e uma luz dura, muito forte. Isso significa que há uma variedade, uma permanência de cores e de vivências de cores”.

“Mas o argumento principal é que como nós fomos todos formados na mesma altura e acreditámos, numa forma ou outra, nesse projecto de construir uma sociedade socialista e igualitária, todos nós somos cineastas sociais. O primeiro filme de amor do cinema moçambicano pós-independência foi precisamente um filme de 10 minutos que fiz há 4 anos, para ensaiar “A Janela”. Toda a nossa temática foi sempre uma temática social, que é uma característica política, de mensagem, mas também de estética, que envolve certas abordagens. Portanto, há uma aproximação em relação à nossa ficção, que tem a ver com a maneira como pesquisamos a realidade”.

Breve História de Moçambique
A história de Moçambique encontra-se documentada pelo menos a partir do século X, quando um estudioso viajante árabe, Al-Masudi, descreveu uma importante atividade comercial entre as nações da região do Golfo Pérsico e os "Zanj" da "Bilad as Sofala", que incluía grande parte da costa norte e centro do atual Moçambique.

No entanto, vários achados arqueológicos permitem caracterizar a "pré-história" do país (antes da escrita). Provavelmente o evento mais importante dessa pré-história seja a fixação nesta região dos povos bantus que, não só eram agricultores, mas introduziram a metalurgia do ferro, entre os séculos I e IV.

Entre os séculos X e XIX existiram no território que atualmente é Moçambique vários estados bantus, o mais conhecido foi o império dos Mwenemutapas (ou Monomotapa).
A penetração portuguesa em Moçambique, iniciada no início do século XVI, só em 1885 — com a partilha de África pelas potências europeias durante a Conferência de Berlim — se transformou numa ocupação militar, com a submissão total dos estados ali existentes, levando, no início do século XX, a uma verdadeira administração colonial.

Depois de uma guerra de libertação que durou cerca de 10 anos, Moçambique tornou-se independente em 25 de Junho de 1975, na sequência da Revolução dos Cravos, a seguir à qual o governo português assinou com a Frelimo os Acordos de Lusaka. Após a independência, com a denominação de República Popular de Moçambique, foi instituído no país um regime socialista de partido único, cuja base de sustentação política e económica se viria a degradar progressivamente até à abertura feita nos anos de 1986-1987, quando foram assinados acordos com o Banco Mundial e FMI. A abertura do regime foi ditada pela crise económica em que o país se encontrava, pelo desencanto popular com as políticas de cunho socialista e pelas consequências insuportáveis da guerra civil que o país atravessou entre 1976 e 1992.

Na sequência do Acordo Geral de Paz, assinado entre os presidentes de Moçambique e da Renamo, o país assumiu o pluripartidarismo, tendo tido as primeiras eleições com a participação de vários partidos em 1994.

Para além de membro da ONU, da União Africana e da Commonwealth, Moçambique é igualmente membro fundador da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral) e, desde 1996, da Organização da Conferência Islâmica. (Para ler texto integral clique aqui)



Descobridor do HIV procura “cura” para SIDA

Maputo, 21 Mar. (AIM) – O prémio Nobel de Medicina, o francês Luc Montagnier, encontra-se em Maputo, capital moçambicana, para apresentar os resultados de uma pesquisa sobre um suplemento alimentar com efeitos “muito positivos” para os doentes de SIDA.
 
Laureado com o Prémio Nobel como reconhecimento à sua descoberta do Vírus de Imunodeficiência Humana (HIV), o professor Montagnier tem estado, nos últimos anos, a investigar o uso de suplementos alimentares benéficos para a prevenção ou combate ao HIV.

O referido trabalho é realizado com a colaboração da “Edge to Edge Global Investiment Limited (E2E)”, uma companhia sul-africana vocacionada á investigação e produção de suplementos alimentares melhorados e, recentemente, desenvolveu um produto com efeitos positivos para os doentes de SIDA.

O cientista francês foi convidado pelo antigo estadista moçambicano, Joaquim Chissano, para falar dos resultados da sua pesquisa durante o segundo encontro do Grupo Livingstone dos Antigos Chefes do Estado e de Governo Africanos, realizado hoje em Maputo. (Para ler texto integral clique aqui)



Fontes: 

segunda-feira, 21 de março de 2011

O crime de Sharpeville: Imperioso lembrar para jamais repetir, ou imitar




Segunda-feira, 21 / março / 2011

Eloi Ferreira de Araujo*


Hoje é um dia especial para a cultura negra. Há exatos 51 anos, 69 crianças, mulheres e homens negros foram assassinados em praça pública pelo exército sul-africano no bairro de Sharpeville, na cidade de Johannesburgo. Motivo: terem saído às ruas, pacificamente, para reivindicar a extinção da Lei do Passe, que os obrigava a portar cartões de identificação com o registro dos locais por onde lhes era permitido circular.

O crime do regime do Apartheid da África do Sul ficou conhecido como O Massacre de Sharpeville. E motivou a instituição do Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, pela Organização das Nações Unidas (ONU). Uma data que o Brasil, a maior Diáspora Africana do continente americano, tem razões, infelizmente, para relembrar.

O Governo Brasileiro, em articulação com a sociedade civil organizada, tem dado passos largos para desestabilizar a mentalidade que constrói tragédias como a de Sharpeville. As políticas de ações afirmativas, que elevaram consideravelmente o número de negros e negras nas universidades públicas; e a sanção do Estatuto da Igualdade Racial, marco histórico para a construção da igualdade de oportunidades entre negros e não-negros, são dois dos mais recentes passos da política de inclusão para o acesso aos bens econômicos e culturais do País.

Mas ainda há muito a enfrentar

Uma rápida análise do noticiário é suficiente para identificar manifestações de racismo na sociedade brasileira. Em 13 de janeiro deste ano, por exemplo, os seguranças de um supermercado em São Paulo foram acusados de apreender, ilegalmente, uma criança de 10 anos, sob acusação de furto e gritos de “negrinho sujo e fedido”. Depois de submeter o garoto a humilhações, os seguranças encontraram em seu bolso o ticket que comprovava que ele pagara pelos objetos sob suspeita…

No Carnaval baiano deste ano, mais um indicativo de discriminação. O líder da banda de pagode Psirico acusou um empresário, em plena Avenida, sob as luzes das câmeras de TV, de tê-lo chamado de “preto” e “favelado”. Os casos ganharam destaque nos veículos de comunicação de massa, mas são apenas dois exemplos, dentre diversos outros registrados em notas de rodapé ou em Boletins de Ocorrência Policial.

O caldo de cultura que baseia tais ataques à identidade de descendentes de africanos está, sem sombra de dúvida, entrelaçado com o perfil dominante das mortes violentas no País, que vitimam, em sua maioria, jovens negros, segundo estudos sobre violência urbana da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O mesmo caldo que motivou o assassinato dos jovens sul-africanos.

E os brasileiros têm consciência da força simbólica do racismo. Não foi à toa que festejaram a eleição do presidente Barack Obama nos Estados Unidos da América. Um negro no comando da mais poderosa nação do mundo emite simbolismo oposto ao que guia as mãos e as vozes que agridem a identidade dos negros e negras no Brasil e no mundo.

Não foi à toa também que, das conversas com a presidenta Dilma Rousseff, tenha constado a agenda da cultura negra. Para além dos resultados imediatos da discussão sobre o Plano de Ação Conjunta Brasil-Estados Unidos para a Eliminação da Discriminação Étnico-racial e Promoção da Igualdade, que norteou a pauta sobre o assunto, há os efeitos simbólicos da visita em si de Barack Obama sobre a identidade negra no Brasil.

Efeitos previsivelmente positivos. Um dos muitos que, esperamos, serão gerados em 2011, instituído pela ONU como o Ano Mundial dos Afrodescendentes.

*Artigo de Eloi Ferreira de Araujo, presidente da Fundação Cultural Palmares, publicado originalmente no Correio Braziliense, sob título “O crime de Sharpeville”.

 
Fotos de Arquivo: Igualdade e Identidade
 
Foto do menino: Ricardo Nogueira




Um Grito de Liberdade: filme para ver e refletir

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As cenas iniciais nos colocam no meio de um gueto. Poderíamos imaginar se tratar de mais um filme sobre o holocausto, não é. A palavra gueto é rapidamente associada ao genocídio dos judeus na 2ª Guerra Mundial praticado pelos nazistas. Nos parece que associá-la a outros momentos da história não é adequado, acreditamos que perseguições e violências semelhantes ao que ocorreu na Alemanha entre 1939 e 1945 não devam ter acontecido nas mesmas proporções em outras regiões do planeta.
No entanto, as imagens marcantes de crianças sendo espancadas, mulheres gritando em desespero, homens tentando se defender de agressões covardes e gratuitas nos são apresentadas. Tanques invadindo locais deploráveis, sem as mínimas condições de higiene, propícias ao surgimento de doenças, onde vivem pessoas aos milhares, estão ao alcance de nossos olhos. Impossível não se sensibilizar com tão evidente falta de humanidade. Estamos presenciando cenas da década de 1970, ocorridas na África do Sul, num sub-distrito de Capetown (a cidade do Cabo). As vítimas de toda essa insanidade são os negros, os agressores são os brancos.
Os registros que deram base para as fortes seqüências filmadas pelo premiado e experiente diretor inglês Richard Attemborough (o mesmo que filmou o épico "Ghandi") vieram de dois livros, escritos pelo jornalista sul-africano Donald Woods, que vivenciou os acontecimentos e pode, dessa forma, fazer relatos denunciando toda a violência e a intolerância características do regime de segregação racial sul-africano, o Apartheid.
Além de ter visto, ouvido e sentido na própria pele todo ódio incontido dos brancos em relação aos seus conterrâneos negros, Woods teve a oportunidade de viver proximamente ao ativista Stephen Biko. Inteligência privilegiada, Biko se tornou uma liderança respeitada dentro de sua comunidade desde os tempos em que era estudante, aproveitando-se das poucas chances de estudar concedidas pelos governantes brancos sul-africanos à maioria negra do país.
A estruturação da sociedade do apartheid fazia prevalecer a lógica mesquinha da divisão injusta dos meios e recursos, das oportunidades e bens materiais, legando a comunidade negra, majoritária em termos quantitativos, as piores condições de vida e de trabalho, a humilhação de ter que pedir autorização para se deslocar de um lugar para o outro, a separação de famílias para que pudessem sobreviver (os empregos eram concedidos em locais distantes, homens e mulheres acabavam se encontrando apenas nas folgas e nos finais de semana), os salários irrisórios, as moradias que eram verdadeiros guetos (favelas, cortiços ou como queiram chamar).
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A violência aplicava-se sob a égide de um estado de caráter fascista, a base de pancadaria e de submissão a condições totalmente desumanas. Woods (interpretado no filme pelo versátil Kevin Kline) é um jornalista liberal, que faz críticas a ação desmesurada do governo, mas que, vive em subúrbio luxuoso, afastado de toda a conturbação característica dos bairros pobres onde residem os negros. Parece atento ao que acontece ao seu redor, mas não consegue perceber todas as mazelas e diferenças que matam milhares, que mutilam outros tantos, que ferem os corpos assim como as almas. E o pior, tudo acontecendo por conta da diferença da cor da pele.
Biko (protagonizado pelo excelente Denzel Washington, premiado com o Oscar duas vezes, por seu desempenho em "Tempo de Glória" e "Dia de Treinamento"), é um dos alvos mais freqüentes dos editoriais escritos por Woods. Do alto de toda a sua sabedoria de membro da classe dominante, o jornalista acredita que a ação de líderes negros como Biko aumenta o ódio racial, faz crescer o número de situações de enfrentamento, distancia a comunidade negra dos brancos e estimula a segregação ao invés de combatê-la.
Quando Woods e Biko se conhecem, quebram as barreiras do silêncio impostas pelo estado racista a Biko e estabelecem conexões entre si que reforçam a idéia de que o diálogo, a compreensão e as concessões são o melhor caminho para solucionar o problema sul-africano. A admiração mútua logo se torna mais marcante e o carisma do líder Biko atinge em cheio o jornalista liberal que passa a utilizar seu espaço no jornal para pregar em favor do fim do apartheid. A perseguição aos negros atinge então seu confortável lar de classe dominante num luxuoso distrito reservado a elite branca.
O que lhe parecia distante, próprio dos subúrbios poeirentos em que residiam os negros, também podia chegar a sua casa, atingir a sua família, obrigá-lo a se calar. Os amargos "remédios" dados pelos racistas sul-africanos a Biko e a Mandela (preso desde a década de 1960 tendo sido solto apenas no final dos anos 1980) atingiam Woods. O doce sonho de que toda a situação vivida pelo país poderia ser superada às custas de planos de governo e boa vontade da população iam por água abaixo. Que alternativa resta senão a luta, que possibilidade se apresenta que não seja o enfrentamento. Biko acreditava ser possível alterar os rumos do país seguindo as máximas de Ghandi e Martin Luther King, sem violência.
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Qual foi o custo de toda essa verdadeira guerra civil que se instalou entre os sul-africanos? Quantos homens e mulheres morreram vitimados pela discriminação? As feridas desse verdadeiro genocídio podem se cicatrizar? Será que um dia superaremos todas as formas de preconceito e aceitaremos os outros como são? Assistir a "Um Grito de Liberdade" nos faz refletir sobre essas questões. Alimenta um debate que a humanidade ainda não conseguiu resolver. Permite que falemos sobre problemas que ainda existem. Apesar do fim do regime do Apartheid, será que a situação de vida dos negros na África do Sul melhorou? Como serão as relações entre negros e brancos nesse país hoje em dia?

Ficha Técnica
Um Grito de Liberdade
(Cry Freedom)
País/Ano de produção:- Inglaterra, 1987
Duração/Gênero:- 157 min., drama
Disponível em vídeo
Direção de Richard Attemborough
Roteiro de John Briley
Elenco:- Denzel Washington, Kevin Kline, Penélope Wilton.