quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Pumeza canta de Puccini a Miriam Makeba na Cultura FM

Pumeza Matshikiza nasceu em 1978 na Cidade do Cabo em família pobre. Sofreu até os 16 anos a odiosa discriminação do regime sul-africano, até a eleição de Mandela para a presidência em 1994. Ela assinou há pouco um contrato de exclusividade com a Decca e está lançando seu primeiro CD, Voice of hope.

Uma trajetória surpreendente e improvável, já que ela não estudou música formalmente, apesar de pertencer a uma família musical. Sua mãe era cantora amadora e a família inclui o músico de jazz Todd Matshikiza. “Cresci cantando em coral na igreja”, diz. Descobriu a ópera por acaso, escutando transmissões pelo rádio. Hoje apresenta-se regularmente na Staatsoper de Stuttgart.

Voice of hope alterna árias de Mozart e Puccini com orquestrações de canções nos dialetos Xhosa, Swahili e Zulu, com destaque para dois “hits” de Miriam Makeba, incluindo até seu megassucesso dos anos 1960, “Pata Pata”. Os ingleses a descobriram por causa da canção “Freedom come all ye”, de John MacLellan e Hamish Scott Henderson. Pumeza foi convidada para cantá-la na cerimônia de abertura dos Commonwealth Games em Glasgow, na Escócia, em julho passado.

O caminho de Pumeza para a carreira lírica passou por uma bolsa de estudos no Royal College of Music de Londres, porta aberta pelo compositor sul-africano Kevin Volans, que a viu cantar “Frasquita” numa montagem da Carmen de Bizet com um grupo de cantores sul-africanos na universidade local. Em 2010, ganhou o concurso Veronica Dunne em Dublin e em seguida obteve o contrato de três anos na Ópera de Stuttgart.

A gravação de estreia, bastante interessante e eclética, é um retrato completo da arte desta sul-africana de bela voz que pode ir muito longe no universo lírico. Ela diz que Voice of hope é uma viagem, a sua, da África do Sul para a cena lírica, ao incluir árias de ópera, canções africanas tradicionais, composições de Kevin Volans e canções em que é acompanhada por um coro africano: “Quando faço um recital, começo com o repertório clássico e depois canto algumas canções sul-africanas no final. É natural para mim cantar música sul-africana. Ponho outro tipo de sentimento nelas”.

Faixas:

1. O mio babbino caro (de Gianni Schicchi)
2. Signore, ascolta! (de Turandot)
3. Thula Baba (Hush, My Baby)
4. Malaika (My Angel)
5. Pata Pata
6. The Naughty Little Flea
7. Vedrai, carino (de Don Giovanni)
8. Donde lieta uscì (de La Bohème)
9. Umzi Watsha
10. Saduva
11. Holilili
12. The Click Song
13. Iya Gaduza
14. Lakutshon’Ilanga (When The Sun Sets)
15. Freedom Come All Ye

Clique aqui e ouça o cd na integra.

Fonte: Cultura FM - CD da semana

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Dia 18/10 Cineclube Afro Sembene e Cojira convidam: Abouna (Nosso Pai) - Especial ao Dia das Crianças


Sinopse: Dois meninos, Moussa e Aguid, acordam numa manhã e descobrem que seu pai abandonou a família. Chocados, começam a se comportar mal. Enquanto, ilicitamente, assistem a um filme, eles acreditam ver seu pai falando com eles e roubam o filme para examinar o negativo. Sua mãe, Haroun, desespera-se e manda-os para a escola corânica. Infelizes, os dois planejam sua fuga, até que o mais velhos dos dois apaixona-se por uma menina surda, Khalil.

Ficha técnica:
Direção: Mahamat Saleh Haroun
Produção: Guillaume de Seille
Elenco: Ahidjo Mahamet Moussa, Hamza Moctar Aguid, Zara Haroun, Mounira Khalil, Diego Moustapha Ngarade.
Co-produção: França/Chade/Holanda. Gênero: drama. Idioma: árabe, francês. Ano: 2002 – Colorido. Duração: 84 minutos. Legendas: Português.

Elenco e produção
Ahidjo Mahamat Moussa, que fez o papel de Tahir, de quinze anos, pôde escolher, entre um grupo de meninos, quem interpretaria seu irmão mais novo, Amine. Ele escolheu Hamza Moctar Aguid, de oito anos, por pensar que ele poderia ser realmente seu irmão. Após as gravações, o filme foi enviado a Paris para ser processado e editado e, depois de uma longa espera, o filme estava pronto para ser lançado.

Prêmios
- Em 2002 - Hong Kong International Film Festival: Firebird Award - Menção Honrosa.
- Em 2002 - Kerala International Film Festival: Prêmio FIPRESCI e Golden Crow Pheasant
- Em 2003 - Ouagadougou Panafrican Film and Television Festival: Baobab Seed Award, Melhor Cinematografia, INALCO Award e UNICEF Award para a Infância.

Sobre o diretor
Mahamat-Saleh Haroun nasceu no Chade, em Abeche, em 1961. Estudou cinema e jornalismo no Conservatório de cinema francês , e em 1986 começou a trabalhar como jornalista e logo depois para uma estação de rádio local. Em 1994 ele fez sua estréia com o curta-metragem Maral Tanie recompensado em muitas Festival. Cinco anos mais tarde, ele fez o seu primeiro longa-metragem, Bye Bye Africa é premiado o melhor trabalho em Veneza, em 1999 . Uma amostra de Abouna , de 2002 , encontrou um lugar de honra no Museu de Cinema de Turim, a Mole Antonelliana e também foi apresentado no Festival de Cannes 2002 . Após Kalala baleado em 2006 , um documentário sobre um colega de trabalho que morreu de AIDS - "meu melhor amigo" - Estação Seca, que recebeu o Prêmio Especial do Júri no 63 Festival de Veneza em Veneza. A temporada de perdão também encontrou uma distribuição italiano, depois de ter recebido o Prêmio Especial do Júri no Lido de Veneza. Do drama à comédia "televisão" (como no caso de Sexe, quiabo et beurre salé ), o diretor gosta de lidar com diferentes gêneros.
Filmografia
Maral Tanie (1994), Bya Bye Africa (1999), Abouna (2002), Kalala (2006), Daratt - La stagione del perdono (Daratt) (2006), Sexe, gombo et beurre salé (2008) e Un homme qui crie (2010).

Serviço
Dia 18 de outubro de 2014 - sábado - 18:30 horas
CINECLUBE AFRO SEMBENE E COJIRA convidam
Sessão Especial em Comemoração ao Dia da Criança
Abouna (Nosso Pai) - direção de Mahamat Saleh Haroun
Local: Sindicato dos Jornalistas de São Paulo
Rua Rego Freitas, 530 - sobreloja - entrada franca
Próximo ao metrô República e Igreja da Consolação
Informações: www.cineclubeafrosembene.blogspot.com.br
www.cojira.wordpress.com - www.sjsp.org.br - e nas Redes Socais

Realização: Associação Fórum África
Parceria: Cojira/Sindicato dos Jornalistas de São Paulo
Apoio: Cabeças Falantes

Agende-se - Compareça - Compartilhe 
Pesquisa, montagem, postagem por Oubí Inaê Kibuko para Fórum África e Cineclube Afro Sembene.

domingo, 7 de setembro de 2014

6 anos de Cineclube Atlantico Negro


O Cineclube Atlântico Negro
Atividade cultural, audiovisual e educativa, criada e produzida pelo cineasta Clementino Junior para promoção do cinema da diáspora africana.

Serviço   Sexta-feira, 12 de setembro de 2014, 19:00 horas
Local: Casa Porto
Largo de São Francisco da Prainha, 4 - Sobrado
20081280 - Rio de Janeiro/RJ
Telefone: (021) 2253-7535

Fonte: Cineclube Atlântico Negro - Facebook


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Força e luta da mulher negra: Giane Vargas Escobar

 Foto: Antônio Jorge Ferreira/Divulgação.

A santa-mariense Giane Vargas Escobar receberá prêmio internacional pelo trabalho à frente do Museu Treze de Maio. Pesquisadora mora em Portugal, onde estuda doutorado em Estudos Culturais, pelas Universidades de Aveiro e Minho.


A GIANE POR GIANE

 
Um sonho
Ver a população negra nas Universidades, como alunos e como professores, em todas as áreas


Um medo

Parar de sonhar, pois são os sonhos e os anjos que me movem. Como diz a canção do grupo sueco ABBA _ que escutava na minha adolescência e terei oportunidade de estar no lugar de origem deles _ I believe in angels_ parte da canção I Have a Dream


Uma vitória

Quando lançamos, em 2003, o Projeto do Museu Treze de Maio e também a primeira edição do livro infanto-juvenil com recorte racial negro, Os Problemas de Júnior, de autoria da escritora Maria Rita Py Dutra. Além disso, acabava de ser criada a primeira Coordenadoria Municipal do Negro em Santa Maria. E em 2008, o primeiro vestibular com reserva de vagas e cotas raciais para negros na UFSM. O Museu Treze de Maio participou ativamente de todos esses processos. Vitórias coletivas, construídas com articulações, garra e luta da população negra de Santa Maria


Um dia inesquecível

Recentemente, quando recebi a notícia do International museum Prize winner 2014,por meio de uma mensagem de Hugues de Varine, consultor internacional na área de museologia e do desenvolvimento, ex-diretor do ICOM, o Conselho Internacional de Museus


Uma inspiração

Gostaria de citar quatro mulheres negras me deram e me dão força para seguir com firmeza a minha caminhada. Muito do que sou hoje é por que tive na minha vida mulheres inspiradoras: Jonbelina, minha mãe, Celanira, minha sogra e amiga, Angelina (in memoriam), minha avó materna e Amoreti (in memoriam), minha tia.

Por Luciane Brum - Diário Santa Maria


Pesquisa e postagem Oubí Inaê Kibuko para Cineclube Afro Sembene e Fórum África.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Cineclube Afro Sembene e Cojira convidam dia 20/9 sessão especial à Independência da República do Mali

A República do Mali
Segundo a Wikipédia: "Mali ou Máli cujo nome oficial é República do Mali, é um país africano sem saída para o mar na África Ocidental. Mali é o sétimo maior país da África. Limita-se com sete países, a norte pela Argélia, a leste pelo Níger, a oeste pela Mauritânia e Senegal e ao sul pela Costa do Marfim, Guiné e Burkina Fasso. Seu tamanho é de 1.240.000 km².

Formada por 8 regiões, o Mali tem fronteiras ao norte, no meio ao Deserto do Saara, enquanto a região sul, onde vive a maioria de seus habitantes, está próximo aos rios Níger e Senegal. Alguns dos recursos naturais em Mali são o ouro, o urânio e o sal.

O atual território do Mali foi sede de três impérios da África Ocidental que controlava o comércio transaariano: o Império Gana, o Império Mali (que deu o nome de Mali ao país), e o Império Songhai. No final do século XIX, Mali ficou sob o controle da França, tornando-se parte do Sudão francês. Em 1960, Mali conquistou a independência, juntamente com o Senegal, tornando-se a Federação do Mali. Um ano mais tarde, a Federação do Mali se dividiu em dois países: Mali e Senegal. Depois de um tempo em que havia apenas um partido político, um golpe em 1991 levou à escritura de uma nova Constituição e à criação do Mali como uma nação democrática, com um sistema pluripartidário. Quase a metade de sua população vive abaixo da linha de pobreza, com menos de 1 dólar por dia. Sua população é estimada em cerca de 12 milhões de habitantes. Sua capital é Bamako."

E é com este homônimo, que o Cineclube Afro Sembene, em parceria com a Cojira, realizará dia 20 de setembro de 2014, no Sindicato dos Jornalistas, a exibição do filme Bamako, de Abderrahmane Sissako, em sessão especial como parte das homenagens ao Dia da Independência da República do Mali, conquistada em 22 de setembro de 1960.

Bamako
Sinopse: Cidadãos africanos decidem processar as instituições financeiras internacionais pelo estado de endividamento em que se encontra o continente. O julgamento se instaura nos jardins de uma casa em Bamako. Só que os procedimentos legais são recebidos com indiferença pelos habitantes locais, que seguem adiante com sua rotina. Entre eles estão Chaka e Melé. Ela é cantora num bar, ele está desempregado, e a relação dos dois passa por um momento difícil.

Elenco: Aïssa Maïga - Melé; Tiécoura Traoré - Chaka; William Bourdon - Advogado da parte civil; Mamadou Kanouté - Advogado de defesa (como Mamadou Konaté); Gabriel Magma Konate - Procurador (como Magma Gabriel Konaté); Danny Glover - Cow-boy; Elia Suleiman - Cow-boy; Abderrahmane Sissako - Cow-boy (as Dramane Sissako).

Ficha técnica
Gênero: Drama, filme político
Diretor: Abderrahmane Sissako
Duração: 115 minutos
Ano de Lançamento: 2006
País de Origem: Mali
Idioma do Áudio: Francês e Bambara
Suporte: DVD

Premiações: Bamako participou da seleção oficial do Festival de Cannes de 2006, sendo exibido fora de competição. Ganhou o Grande Prêmio do Público nos Encontros Paris Cinéma de 2006.

Sobre o diretor*
Abderrahmane Sissako nasceu em 1961 em Kiffa, na Mauritânia, e passa sua infância no Mali. A partir de 1983, segue em Moscou o curso do célebre VGIK, o Instituto Gerasimov de Cinematografia, onde finalizará seus dois primeiros curtas-metragens: "Le jeu" e "Octobre" que será apresentado em 1993 na sessão "Un certain regard" do Festival de Cannes. A partir de uma encomenda de fábulas de La Fontaine, realiza "Le chameau et les bâtons flottants" em 1995 e em seguida um curta-metragem da série "Africa Dreamings", "Sabriya - le carré de l'échiquier", no qual dois homens evoluem em um café perdido num universo de areia. Em 1998, no contexto da coleção "2000 vu par…", ele roda "La Vie sur Terre", no qual interpreta a si mesmo, um cineasta vivendo na França e que, na véspera do ano 2000, parte para Sokolo, a aldeia maliana onde vive seu pai. Um "retorno ao país natal" cuja tessitura agridoce ecoa os textos de Aimé Césaire. Em 2002, Abderrahmane Sissako realiza na Mauritânia "Heremakono - En attendant le bonheur", que aborda em uma série de quadros sensíveis e significantes o exílio e as relações entre a África e o Ocidente. Selecionado em inúmeros festivais internacionais e notadamente em Cannes, onde obteve o prêmio da crítica internacional, o filme recebe igualmente o Étalon de Yennenga [prêmio mais importante] do Fespaco [Festival Pan-Africano de Cinema] de Ouagadougou [capital de Burkina Faso], assim como o Grande Prêmio da Bienal dos cinemas árabes de Paris. Em 2006, na casa de seu pai no Mali, ele roda "Bamako", no qual põe em cena um julgamento das instituições internacionais pelas injustiças a que submete a África. Selecionado fora de competição no Festival de Cannes de 2006, esse filme, lançado em 18 de outubro nos cinemas franceses, obteve o Grande Prêmio do Público nos Encontros Paris Cinéma.

Serviço:
Cineclube Afro Sembene e Cojira convidam
Sessão Especial Independência República do Mali
Bamako - direção de Abderrahmane Sissako
Dia 20 de setembro de 2014 - 18 horas
Sindicato dos Jornalistas de São Paulo
Rua Rego Freitas, 530 - sobreloja - entrada franca. 
Próximo ao metrô República e Igreja da Consolação

Informações:
www.cineclubeafrosembene.blogspot.com.br
Email: cineafrosembene@gmail.com
www.cojira.wordpress.com - www.sjsp.org.br - e nas Redes Sociais

Realização: Fórum África
Parceria: Cojira/Sindicato dos Jornalistas de São Paulo/UMSPB (União Malinesa em São Paulo-Brasil)
 

Subsídios para melhor compreensão do filme Bamako - resenha
por Olivier Barlet - Tradução Céline Dewaele.

Tradução eletrônica – texto original em inglês.

"A cabra tem suas idéias, mas o mesmo acontece com a ave". O camponês maliano quem diz isso está no banco das testemunhas de um tribunal criado em um pátio em um bairro popular de Bamako, para um julgamento que opõe a sociedade civil e as instituições internacionais da globalização, do FMI e do Banco Mundial em primeiro lugar. Durante estes debates ao vivo transmitidos através de um alto-falante externo, a vida continua no pátio: mulheres tingir batiks, um casal é casado, enquanto outro separa, as crianças vêm e vão. É no pátio seu recém-falecido pai que Abderrahmane Sissako queria filmar porque foi aqui, neste lugar cheio de vida, que ele cresceu e apaixonadamente discutido África com ele.

Construção Não? É claro, mas tão relevante que se torna convincente. Muito intelectual um debate? Como se pode pensar que as pessoas comuns não conseguem entender o que está se formando? Manthia Diawara já havia mostrado que em seu documentário Bamako Sigi-kan (O Pacto de Bamako): as pessoas comuns não são enganar; sua consciência é aguda, a sua reflexão sobre o mundo permanente. Eles perfeitamente compreender as palavras e as questões deste estudo porque eles experimentá-los diariamente em sua carne. E mesmo que as idéias expressas já são conhecidos por todos, dizendo-los novamente, transcendendo-los com a força de uma expressão artística, era necessário. A profunda emoção que se sente quando se compromete a abrir-se para esse filme vai muito além dos discursos trotou para fora sobre as falhas da globalização e as relações Norte / Sul. Provavelmente porque a complexidade aumenta, voltando para idéias simples é essencial, pois é para estes a ser ainda mais ancorada através da sensibilidade.

Como tinha que haver argumentação e de debate, um ensaio com os advogados e testemunhas era um pré-requisito, assim como no cinema americano! Como é urgente para se concentrar em idéias fortes para combater tanto o fracasso das apela ao sentido de identidade e de política comuns, os fundamentos de defesa tinham o seu lugar, com o fervor eo compromisso de sua retórica. É este tribunal que estamos a assistir a duplicidade dos países do G8 está exposta; os países do G8 que afirmam a sua boa vontade de cancelamentos de dívida amplamente coberto pela mídia, quando, apesar de já amplamente reembolsado, continua a sangrar secar os países capturados em um laço, o que os impede de prestar serviços sociais. "O laço" é o título de um livro de Aminata Traoré - ex-ministro da Cultura, em Mali-que é chamado para o banco das testemunhas aqui. Condenando o cinismo e desonestidade dos países ricos, este julgamento acusa o estupro da imaginação, tanto quanto a destruição dos serviços públicos orquestrados pelos ajustes dos planos culturais que só levaram ao fracasso. A oportunidade de falar é dado aos oradores, como Aminata Traoré como ou um professor brilhante, mas também e acima de tudo para as pessoas comuns. O summum de expressão e emoção é alcançado quando um camponês, Zegué Bamba, não é mais capaz tonelada conter o que ele quer dizer e, girando o mata-moscas, lança um longo lamento meia-falado / half-sung. Nós ouvi-lo tanto mais que as suas palavras não são traduzidas em legendas, portanto escapando tudo projeção exótica e redução. Comovente e profundamente digna, seu grito ecoa uma África que sofre, mas nunca dá.

Filmado em vídeo com cenas estáticas que intensificar o cerimonial, o julgamento convida juízes reais e advogados que estavam livres para desenvolver seus próprios argumentos. Eles são tudo o mais sincero e convincente. Eles ficaram o tempo para demonstrar e sua imagem não é fragmentado pela multiplicação de tiros, o que lhes permite ser credível. De tempos em tempos, os tiros de imagem no filme vêm enriquecer em vez de ilustrar o discurso. Aqueles dos migrantes voltaram para o deserto não é um copy / paste da história do outro no banco das testemunhas: em poucos tiros que arregimentam mais do que eles são avassalador, Sissako resume a desumanidade escandaloso com que a emigração é tratada. Aqui, as palavras são redundantes: como belos ecos cantando melancólicas de Oumou Sangare, tintura das mulheres dá a água avermelhada eo pano obtido invade a tela.

No meio do filme, embora existam advogados negros e brancos em ambos os campos, um episódio ocidental sphagetti hilariante com tanto ator Dany Glover e cineastas Elia Souleiman e Zeka Laplaine traz à mente, por sua construção mimética e uso de burlesco, o Retorno do Aventureiro por Moustapha Alassane, mas também se destaca como uma ilustração de intervenções das instituições internacionais. É realmente as pessoas negras que se livrar de "o professor que está no caminho": longe do discurso de uma vítima, Sissako relembra participação dos africanos no suicídio de seu continente.

Mas o Norte não podem ser tolerados. Sua responsabilidade é inevitável, já que estigmatiza a África de hoje para os problemas que se tem provocado, casualmente causas confusas e consequências, pauperização e da pobreza. Os advogados da sociedade civil exponha este ballet hipócrita que mantém a visão de um continente amaldiçoado fadado ao infortúnio e à corrupção vivo. Não haverá mais lágrimas, como os de Aïssa Maïga que canta tão bem. Utopia sozinho é tudo o que resta para evitá-los, este carneiro Africano que literalmente bitucas Mestre Rappaport, advogado das instituições internacionais. E essa utopia seria, por bem ou por mal, colocar essas instituições de volta ao serviço, não do capitalismo liberal, mas de homens, sua vocação original.

É luminosa, como este filme soberbamente lunar em que as mulheres são a principal força motriz, em que cada imagem tem sua própria beleza e estrato de significado. Além da consciência aguda da tragédia de África, um corpo solitário que só um cão se atreve a farejar, uma grande lufada de ar fresco é possível, se os ventiladores estão definidos no lugar certo. Se ao menos fosse feito: é a esta utopia que este belo filme chama; um filme que muito bem e profundamente marca tod

*Biografia e Resenha traduzida de Africultures
Fonte secundária: Making Off
Fonte primária: Africultures

Pesquisa e postagem Oubí Inaê Kibuko para Cineclube Afro Sembene e Fórum África.

Adbullah Ibrahim: A força da música forjada no apartheid da África do Sul



                                                         O músico Abdullah Ibrahim (Foto: Manfred Rinderspacher / Reprodução)

Quando nasceu, em 9 de outubro de 1934 na Cidade do Cabo, África do Sul, deram-lhe nome e sobrenome anglófonos – Dollar Brand. Na idade da razão, aos 34 anos, convertido à religião islâmica em 1968, passou a se chamar Adbullah Ibrahim. Estudou piano desde os 7 anos; aos 15 tocava nos Tuxedo Sclicker e Willie Max Big Band; aos 25 integrou o grupo The Jazz Epistles, com o qual gravou o primeiro disco de jazz por músicos sul-africanos.

Sua música emerge da vontade de lutar contra a discriminação racial em seu país e do cruzamento das canções tradicionais e folclóricas sul-africanas, música religiosa e o jazz. Tudo regado a uma sólida formação musical clássica. Um de seus discos, Mannenberg, gravado 40 anos atrás, transformou-se em símbolo da luta contra o Apartheid na África do Sul. Hoje, é um dos mais amados hinos de esperança, resistência e celebração da dignidade humana face à brutalidade daquele regime.

Além e acima de todos estes ingredientes ideológico-religiosos, Ibrahim é um músico notável pelo que produz artisticamente. Possui uma sonoridade própria, algo imprescindível no mundo do jazz.

Mukashi, o CD desta semana, recém-lançado por Ibrahim, é um exemplo de seu universo muito particular. Ele convoca um saxofonista e dois violoncelistas para esta "viagem" por seus temas originais. "Mukashi", em japonês, quer dizer ”era uma vez”. Apaixonado pela cultura japonesa, o pianista aprendeu artes marciais, que ainda hoje pratica, aos 79 anos. Cada uma de suas criações é uma história que conta para nossos ouvidos. Daí o título Mukashi. A escolha dos instrumentos que formam este quarteto instaura uma atmosfera de música de câmara. Como em "Serenity" e "Peace", por exemplo. Seu piano solo brilha, econômico, majestoso, calmo, porém sempre intenso, em "The stars will remember", "Cara Mia", "Root" e "Essence".  A maior influência jazzística sobre Ibrahim comparece nos angulares intervalos de "Trace Elements for Monk", um duo com a flauta de Cleave Guyton.

Um dos destaques de Mukashi é a suíte "Krotoa", retratando o encontro, no século 17, da nativa sul-africana Khoi com os primeiros colonos brancos europeus. Suas três partes intitulam-se "Crystal Clear", "Devotion" e "Endurance".

Faixas:

1. Mukashi
2. Dream Time
3. The stars will remember
4. Serenity
5. Mississippi
6. Peace (the ebb and flow of nature)
7. Matzikama (the place that gives water)
8. Cara Mia
9. Root
10. Trace Elements For Monk
11. Krotoa - Crystal Clear
12. Krotoa - Devotion
13. Krotoa - Endurance
14. In The Evening
15. Essence
16. The balance


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O cinema militante também conhecido como cinema politico

Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera, enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada
"E Vamos À Luta" - Gonzaguinha


Cinema militante é uma designação que pode ser entendida em sentido lato ou restrito. Em sentido restrito, refere-se ao cinema político inspirado nos ideais de Maio 68. Em sentido lato, refere-se também a uma prática de cinema que, usando do mesmo modo as técnicas do cinema directo, mais tarde se tentará afirmar defendendo outros ideais, como por exemplo os dos movimentos gay ou feministas.

Caracteriza-se por uma preocupação em se fazer sentir mais como forma de intervenção social ou política do que como forma de expressão artística, o que em geral confere aos filmes assim designados mais uma validade histórica do que estética. Há quem porém defenda, desde as primeiras horas do movimento, que será a própria dialéctica histórica e social o verdadeiro motor da força estética da obra, como o próprio Jean-Luc Godard proclama numa célebre entrevista que faz a Fernando Solanas, em 1970.

Características

Historicamente prefigura uma categoria de cinema político, cuja prática se manifesta essencialmente na área do documentário. É um «cinema do real», que se caracteriza pela intervenção, social ou política, num determinado contexto histórico e numa perspectiva de esquerda. Ágil, usa as novas técnicas do cinema directo: gravação de som directo e câmaras portáteis de 16 mm. O propósito dos seus autores não é o espectáculo, não é a venda de um bem de consumo, é outro tipo de propaganda. É o uso da câmara como arma ideológica, é a crítica antiburguesa, é uma certa didáctica do progresso, é o debate tendo em vista uma sociedade justa, por via do socialismo. As ideias ganham corpo na revolução em curso, o cinema vira manifesto.2

O termo torna-se corrente a partir dos finais dos anos cinquenta, em França, com os acontecimentos do Maio 68: quando o cinema se torna proletário, quando o fabrico de imagens animadas cai nas mãos dos operários. A ideia, no que tem de arrojada, alicia notáveis obreiros e leva-os a acesos debates. Jean-Luc Godard, erguendo bem alto o «Livro Vermelho», é um dos que não hesitam. Filma La Chinoise e avança para o combate com o Grupo Dviga Vertov (1968 / 1972), de onde sairão filmes como British Sounds, Pravda, Vent d'Est, Luttes en Italie, Jusqu'à la Victoire, Vladimir et Rosa, Tout va Bien e Letter to Jane. Iluminados pelas ideias novas, jovens críticos e teóricos de cinema relevam a importância do género. Militando com Godard, assumem-se como maoístas Les Cahiers du Cinema. 1970 será o ano de maior actividade em França dos grupos maoístas, como La gauche proletarienne, ou La cause du peuple,

O cinema militante – cujo personagem central é operário ou camponês – mostra greves, ocupações de fábricas ou de terras, movimentos renovadores em curso. Serve por vezes apenas para ilustrar um momento histórico importante numa óptica revolucionária. O movimento terá importantes seguidores e vasta expressão em países da América Latina, África, México, E,U.A. França e Portugal a partir do inicio dos anos setenta. Enquanto noutros países o filme político se caracteriza em geral como forma de contestação dos regimes vigentes, em Portugal o género, associado ao movimento do Novo Cinema, diferencia-se pelo facto de ser representado por filmes que sustentam o «processo revolucionário em curso».

Ditas assim as coisas, parecem pertencer ao passado. Mas – note-se – tudo no cinema é ilusão.

História

A definição do termo cinema militante é formalizada nos Estados Gerais do Cinema de Maio 68, com o manifesto «Para um Cinema Militante», que proclamava «a rotura ideológica com o cinema burguês» e o «uso da câmara como arma política». A ideia fora já explorada em França, em anos anteriores, mas sem significativas consequências.

O IDHEC, a escola oficial de cinema, aderindo ao movimento grevista, os Estados Gerais e certas agências de filmes publicitários filmam as greves, as manifestações, os eventos da Sorbonne e do Odéon. Grands soirs et petits matins, de William Klein, é uns dos filmes desse cinema. Será a obra de referência dessa época La reprise du travail aux Usines Wonder, um filme em plano-sequência de cerca de dez minutos feito pelos alunos do IDHEC, filme que regista as discussões entre os operários grevistas das fábricas Wonder. Devem os operários regressar ou não ao trabalho? Jacques Rivette refere-se ao filme nestes termas: «é um momento em que a realidade se transfigura ao ponto se pôr a condensar toda uma situação política, em dez minutos de uma incrível intensidade dramática».

Costuma considerar-se como o primeiro filme do cinema militante Loin du Vietnam (1967), obra colectiva contra a guerra do Vietnam, com assinaturas de Alain Resnais, Agnès Varda, Jean-Luc Godard, Joris Ivens, Jean Rouch, Ruy Guerra, René Vaultier. O filme é produzido sob os auspícios de Chris Marker e de Mario Marret.

Surge entretanto o Grupo Medvedkine: operários de Besançon e de Sochaux, que, junto com cineastas profissionais, aprendem a filmar e acabam por realizar Classe de lutte, obra de referência. Outros filmes surgem: Humain trop humain (1972), de Louis Malle, sobre as fábricas Citroen, Nouvelle Société, uma série de reportagens alternativas à televisão, feita por operários.

O Grupo Dziga Vertov é comandado por Godard – que o funda com o lançamnento de La Chinoise – e outro, o Grupo Dynadia (mais tarde Unicité) é afiliado do PCF.

Os agentes desta primeira vaga de militância agrupam-se na década de setenta em unidades colectivas, como o ISKRA (antigo SLON, fundado em 1967 por Chris Marker). São fundadas duas unidades por alunos e professores do IDHEC, O Atelier de Recherche Cinématographique (ARC) e o Cinélute, liderado por um grupo radical maoísta. A maior parte destes grupos desfaz-se durante a década de setenta. Chris Marker reaparece em 1977 com Le Fonds de l’air est rouge, um filme sobre dez anos de lutas revolucionárias no Maio de 1968 e em países como o Japão, a África, o Chile.
Em Portugal

É nesta vertiginosa sequência de imagens que surge a Revolução dos Cravos. Dir-se-ia haver algo no mundo de então dando azo a essas coisas.

Sem que alguém o previsse, uma delas acontece em Portugal. De um momento para o outro, o cantinho torna-se centro das atenções: imagens animadíssimas de uma revolução em curso num país da Europa, com importantes responsabilidades estratégicas em África, onde mantem uma desastrosa guerra colonial. As imagens entram no mainstream da época. Imagens simpáticas, é certo, mas perturbadoras: mostram uma tremenda explosão de alegria, um arreigado sentimento colectivo de esperança, um acérrimo empenho, uma praxis dura, apontando para uma sociedade renovada, num futuro em construção. Imagens algo idênticas às que se vira há pouco tempo por outras bandas, e com graves consequências: na América Latina, no Chile de Salvador Allende.

É este neste quadro que, finalmente libertos, os cineastas portugueses se lançam na aventura, tornando-se agentes do «processo revolucionário», unidos, apesar de militarem ou apostarem em diferentes partidos, do PS à extrema esquerda, como é o caso de Eduardo Geada ou de Alberto Seixas Santos que, fã de Jean-Luc Godard e Jean-Marie Straub (en - Wiki), é um dos mais empenhados radicais do cinema. Era inquestionável: o alinhamento é uma necessidade vital, um imperativo ético. O mesmo que sentiram em França os alunos do IDHEC, o mesmo que sentiu quem filmou Loin du Vietenam (obras colectivas que denunciam o gosto da militância) sentia-o agora, recuperando o fôlego dos colegas franceses, que esmorecia, um grupo significativo de realizadores e técnicos portugueses, que, logo ao primeiro sinal de mudança, resolve fazer também criar obra colectiva: As Armas e o Povo.

A iniciativa colectivista dos kinoki portugueses, dos «operários do cinema» da época (técnicos e realizadores), faz-se sentir em várias frentes, sendo uma das mais importantes o Sindicato dos Trabalhadores do Filme (mais tarde Sindicato dos Trabalhadores da Produção do Cinema e Televisão - STPCT). A principal vitória obtida na luta é a ocupação do Instituto Português de Cinema, o que significa ter meios técnicos ao alcance da mão e uma gestão justa dos fundos destinados à produção. Formam-se assim no IPC as Unidades de Produção. Virão logo a seguir as novas cooperativas, extinguem-se as Unidades. A reviravolta explica-se por motivos de ordem política. O fim do PREC altera as regras do jogo.

Filmes (documentário)
 
longas metragens

1974

    Lisboa, o direito à cidade de Eduardo Geada

1975

    As Armas e o Povo (colectivo)
    Liberdade para José Diogo de Luís Galvão Teles
    Deus, Pátria, Autoridade de Rui Simões (cineasta)
    Que farei eu com esta espada? de João César Monteiro

1976

    Acção, Intervenção: colectivo da cooperativa Cinequanon
    Fátima Story de António de Macedo
    Continuar a Viver ou Os Índios da Meia-Praia de António da Cunha Teles

1977

    Contra as Multinacionais (colectivo da Cinequipa)
    25 Canções de Abril: colectivo orientado por Luís Gaspar (cineasta)
    Terra de Pão, Terra de Luta de José Nascimento
    A Lei da Terra: colectivo do Grupo Zero
    Torre Bela (filme) de Thomas Harlan

1980

    Bom Povo Português de Rui Simões (cineasta)

médias e curtas metragens

1974

    28 de Setembro / 6 de Outubro – 1974 de José de Sá Caetano

1975

    Cooperativa Agrícola da Torre-Bela de Luís Galvão Teles
    Ocupação de Terras na Beira-Baixa de António de Macedo
    Unhais da Serra — Tomada de Consciência Política numa Aldeia Beirã de António de Macedo
    Construção Civil (filme) da Unidade de Produção Cinematográfica nº1 – IPC (colectivo)
    Beja, um povo que se levanta de Alfredo Tropa

1976

    O Outro Teatro de António de Macedo
    Assim começa uma cooperativa do Grupo Zero (colectivo)
    Barronhos: quem tem medo do poder popupar? de Luís Filipe Rocha
    Avante pela Reforma Agrária da Unidade de Produção Cinematográfica nº1 (colectivo)
    S. Pedro da Cova de Rui Simões (cineasta)
    Pela razão que têm de José Nascimento (Cinequipa)
    A Luta do Povo do Grupo Zero (colectivo)
    Applied Magnetics da Cinequipa (colectivo)
    De Sol a Sol da Cinequipa (colectivo)
    Deolinda da Seara Vermelha de Luís Gaspar (cineasta) - IPC
    Greve na Construção Civil da Cinequanon (colectivo)

1977

    O Rendeiro de Luís Gaspar (cineasta)
    Operação Boa Colheita de Luís Gaspar
    1º de Maio de 1977, Grande Jornada de Luta da Unidade de Produção Cinematográfica nº1 (colectivo)

1978

    Julho no Baixo Alentejo de José Nascimento

filmes estrangeiros

1974

    25 Avril de Jacques Comets

1975

    República (filme) do Newsreel (Robert Kramer) – sobre o Jornal República
    Milho Verde de Paolo Sornaga – os objectivos do MFA

1976

    Setúbal, ville rouge - longa-metragem de Daniel Edinger - o poder popular em Setúbal em Outubro 1975
    On the side of the people do Newsreel (Robert Kramer) - a classe operária e o MFA

1977

    Scenes from the class struggle in Portugal (longa-metragem de Robert Kramer do Newsreel)

Fontes

    O Cais do Olhar de José de Matos-Cruz, ed. da Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 1999.
    Programa da Mostra Internacional de Cinema de Intervenção (1976) (Centro de Intervenção Cultural) - Lisboa
    IPC (fichas de filmes)

NOTA: Na prática do cinema de intervenção, a par dos filmes estritamente militantes, produziram as cooperativas um número importante de filmes didácticos, ao serviço da revolução em curso, em boa parte destinados à televisão.
Teorias e militâncias

Na sétima, como nas outras artes, o valor de uma obra só será negativo se ela for insignificante, isto é, se a obra for destituída de significado, se nada transmite: se não corresponde a nenhuma forma de verdade, se, no mínimo, não nos toca os sentidos. Para ser arte, e por o ser, tem de conter alguma verdade naquilo que dá a ver e ouvir. Tem de ser sempre e de qualquer forma «cinema verdade». E, tão importante como isso, tem de algum modo de nos tocar o coração, a «câmara na mão vale tanto como a caneta ou a charrua».

A crítica de «bom gosto», no cinema, com boas razões, procura sempre justificá-las pela teoria. Mas cai muito em tentação, estabelecendo regras – as do «bom» gosto – e fazendo disso militância. Postura imprudente. Pelas opções que faz, pelo estilo, por ter uma base instável (o gosto), corre sempre o risco de ficar velha. Mudam-se os tempos, mudam-se as sensibilidades. Aquilo que hoje nos parece insignificante poderá ser amanhã visto como tendo um significado imprevisto. As transformações históricas trazem-nos surpresas. Às tentas somos forçados a rever as coisas, a ver outra vez o fita, agora com olhos diferentes. Refresca-nos as ideias. Pode até despertar-nos os sentidos.

Imbuídos do élan militante que animava o documentário, cientes dos riscos que corriam, alguns dos kinoki portugueses tentam a ficção e fazem obra: obras que, acabado o PREC, ficam esquecidas. Esse «cinema do real» e as ficções tecidas em torno do tema terão o mesmo destino.

Obras falhadas? Retóricas? Obras «marcadas», «imperfeitas», «impuras»?. Qual o sentido do esquecimento? Maior ainda do que aquele a que foi votado o documentário que retrata o homem, em geral ou particular, e não em termos de classe: filmes inócuos mas impertinentes? A sua provável imperfeição não justifica a indiferença. O real que traduzem, mais coisa menos coisa, toca-nos sempre o coração.
A ficção militante

    1970 – Nojo aos Cães de António de Macedo
    1975 – Os Demónios de Alcácer Quibir de José Fonseca e Costa
    1975 – O Funeral do Patrão de Eduardo Geada
    1976 – A Santa Aliança de Eduardo Geada
    1976 – Ofensiva Popular de António Faria (curta-metragem)
    1977 – A Confederação – o povo é que faz a história de Luís Galvão Teles

Umas e outras, estas e outras obras mal vistas na história «oficial» do cinema português, são indiciadoras. Vistas em sincronismo histórico com outros factos mostram coincidências que reforçam a noção de que os teóricos do bom gosto se tornaram poder. O efeito causado por certos filmes da época fechou portas a certos realizadores e abriu-as aos mais abertos, aos que prometiam. Algumas das portas fechadas não mais se abriram.

Fonte: Wikipédia - Cinema Militante/Cinema Político


Pesquisa e postagem por Oubí Inaê Kibuko para Cineclube Afro Sembene e Fórum África.