sexta-feira, 6 de junho de 2014

Um livro pioneiro sobre o cinema em e de Moçabique

sobre livro de Guido ConventsOs Moçambicanos Perante o Cinema e o Audiovisual. Uma história político-cultural do Moçambique colonial até à República de Moçambique (1896-2010).
Estou a ver o Guido Convents à minha frente, como se diz em português moçambicano, com seu ar solene, vagamente nostálgico, ou não fosse ele filho desse “Plât Pays” de que falava Brel, cantando-o, em francês. Que me perdoe ele a referência à língua de Yourcenar, agradável alusão, adivinho-a, para Monsieur. Pedro Pimenta, seguramente sentado a seu lado. Circunstância que dá une Belgique linguística e inusitada em Maputo. Guido Convents é de etnia flamenga. Não se riam…

Vejo-os porque há um filme batendo na cabeça que permite estas misteriosas artes de sangoma. Que ninguém se assuste e não trema a voz a Cristiana Pereira, esforçada leitora destas palavras de inscrição, que não de circunstância. Ao público presente,  aos cineastas e a todos os amantes do cinema, aquele Abraço.

Os Moçambicanos perante o cinema e o audiovisual – uma história político-cultural do Moçambique colonial até à República de Moçambique (1896-2010), que tive a honra e o prazer de rever, é uma obra seminal, pioneira.Trata-se do primeiro e abrangente olhar sobre o que foi a exibição, recepção e produção de imagens no imenso e belo território à beira-Índico pulsando. Obra extensa, com rigores metodológicos e profusa bibliografia, não deixa de se constituir como uma narrativa, em caleidoscópio, desse “mundo do cinema”, como gosta de salientar o autor, presente em Moçambique quase imediatamente após a céllebre sessão dos irmãos Lumière, em Paris. Estava Ngungunhane a começar a sofrer o seu exílio, nos Açores, tumultuava a terra moçambicana no começo de uma saga de ocupação que só terminaria em 1975.

Como humilde copy desk, não me cabe fazer a apresentação da obra. Devo dizer que, diante de tanto texto, às vezes escrito em “belguês”, me senti como o tipógrafo-revisor Raimundo, da obra de Saramago, tentado a mudar uma simples vírgula, não para adulterar a prosa, mas para conseguir abraçá-la por inteiro e de uma vez, restituindo-a à língua de Craveirinha. Mas como ganguissavam as palavras!… Só espero não ter falhado muito. Se notarem uma ou outra gralha, deixem-me ao menos subir às palmeiras, para citar o verso de António Jacinto e título do filme de Joaquim Lopes Barbosa, cujo, em sessão clandestina, vi no estúdio de Courinha Ramos, na antiga Latino Coelho.

Sobre o livro falarão, decerto, outros e mais autorizados leitores e especialistas. Eu não passo de um fantasma, uma tela de palavras, cuja articulação, sentido e som, vos chega na pausada leitura de Cristiana Pereira.

O que pretendo é fazer uma declaração de amor. Não se surpreendam nem tirem conclusões apressadas… Sou obrigado a este texto por irrecusável directiva de Pedro Pimenta. É ele o responsável.

E a declaração de amor tem como objecto de desejo essa magia de luz e som que dá pelo nome de cinema.
Lawrence da ArábiaLawrence da Arábia 
Com este trabalho de Guido Convents dei por mim a fazer um imenso flash back. Vi-me a subir o elevador do Prédio Paulino Santos Gil para ir pagar as quotas do Cine-Clube, a descer do Alto Maé à baixa para assistir à estreia, no Varietá, do Lawrence da Arábia, de David Lean, com o velho porteiro e contínuo, o Picão, a dar-nos calduços no toutiço, que era o preço de uma entrada de borla, nós, espécie de “les enfants du paradis”, sozinhos, com um pirolito e um remexer de bolsos a ver se ainda dava para uma Coca-Cola. E a tarde de sábado, britânica… suspiraria Reinaldo Ferreira. Rememorei o que me contou José Craveirinha sobre as sessões no cinema popular que ficava na 24 de Julho onde é hoje o Museu da Revolução. E voltei a ver o letreiro já muito esbatido de um certo cinema “Variedades”, no Alto Maé, em cuja construção um avô colonial e pedreiro trabalhou.

Guido ConventsGuido Convents 
Ao filme interior, que esta obra de Guido Convents me suscitou, acrescentou-se a aprendizagem de tanto “facto/fado” ligado à aventura das imagens em Moçambique. Porque se trata de um livro com interessantes surpresas. A começar pela pelicula que se estreia no famoso cinema Império, da avenida de Angola. Depois, a rede de exibição que a Igreja católica, mas também outras confissões, mantinham junto da então chamada população indígena. O que eles viram meu Deus! Não se riam.

Tendo como fonte principal O Brado Africano, Guido Convents fornece-nos matéria para melhor percebermos como as diversas camadas que então constituíam a sociedade colonial se posicionavam em relação ao “mundo do cinema”: do proselitismo imperial e confessional ao posicionamento, com inquietações identitárias, das diversas camadas dos chamados filhos da terra. E de como o cinema, anos mais tarde, já em pleno impacto da luta de libertação, serviu como medidador e metaforização do debate político urbano sobre a afirmação nacional moçambicana. E foi instrumento de propaganda e divulgação da luta armada.

Do pós-independência falarão os ilustres apresentadores da obra. Aliás, atenta e minuciosa segunda parte deste livro. O que me ocorre é perceber o imenso interesse que o fenómeno cinemaográfico em Moçambique está a suscitar entre estudiosos, um pouco por todo o mundo, e de como nos pertencem também, aquelas imagens que os outros fizeram sobre nós. Mesmo as que estejam eivadas das singulares e imperiais retóricas que bem conhecemos.

Como ósculo final - happy end, portanto -, para esta misteriosa dama de Xangai na sua sala de espelhos, não queria deixar de homenagear os cineastas moçambicanos, cuja difícil e já significativa aventura, em meio de tantas dificuldades, teima em prosseguir.

Lendo esta obra de Guido Convents, percebe-se que há um desafio de produção, de exibição e de cultura que urge continuar. Há uma Cinemateca por criar. Há uma Lei do Cinema que é imperioso regulamentar, agilizar, adequar às realidades concretas do país.

O cinema moçambicano é parte do acervo histórico nacional, e uma ferramenta poética para perceber o presente e perspectivar futuros; é património cultural, a par da nossa literatura, da pintura, da escultura, do teatro, do canto e da dança, podendo espelhá-las a todas, essas belas e malasartes, mais a imensa riqueza linguística e diversidade de que é feita a invenção real e utópica da nossa plural identidade.

Last, bu not least, uma saudação a Pedro Pimenta e ao DocKanema, esse supremo atrevimento de Festival a querer colocar Maputo no road map do cinema africano.
Com um aceno de felicitações a Guido Convents, sugiro que comecem agora a falar a sério.

Kanimambo.

Fonte: Buala

“Os filmes africanos não conseguem existir sem o interesse da Europa”

Jorge Mourinha - 20/05/2014

O Festival de Locarno seleccionou quatro projectos de cineastas africanos de língua portuguesa para apresentar no seu fórum de financiamento. Três observadores explicam porque é que, sem estes fóruns, talvez não possa existir um cinema africano.

Quatro filmes de cineastas africanos de língua portuguesa estão entre os doze projectos da África sub-saariana seleccionados para a edição 2014 do Open Doors, o fórum de financiamento do Festival de Locarno, que decorrerá em Agosto, em simultâneo com a 67ª edição do certame.

Quatro longas-metragens que vão àquela cidade suíça ser apresentadas a potenciais parceiros de produção e financiamento, assinadas por nomes com créditos no cinema africano de língua portuguesa: as ficções Aleluia do angolano Zezé Gamboa, Heart and Fire do moçambicano Sol de Carvalho e Comboio de Sal e Açúcar do moçambicano Licínio de Azevedo, e o documentário do moçambicano Inadelso Cossa, Kula, uma Memória em Três Actos.

E quatro filmes que, pela sua própria presença em Locarno, exemplificam a difícil sobrevivência das cinematografias de países exteriores aos circuitos tradicionais, e sobretudo de uma África onde as dificuldades do desenvolvimento social e político têm atirado a cultura para um papel secundário ou inexistente. Como diz Fernando Vendrell, realizador e produtor português cuja companhia David & Golias tem co-produzido regularmente cinema africano, “os países de onde estes cineastas vêm não têm políticas de cinema, o que faz que sofram de forma muito agressiva com a questão dos financiamentos.” Fóruns como o Open Doors tornam-se, assim, na melhor – por vezes na única - oportunidade possível para conseguir montar projectos.

Não é uma questão que afecte exclusivamente o cinema africano, mas afecta de modo particular as cinematografias “minoritárias” que são o foco central do Open Doors, como explica por telefone ao PÚBLICO a responsável da estrutura, Ananda Scepka. “Especializamo-nos nos países do sul e do leste, zonas que enfrentam desafios complicados mas que são interessantes precisamente por isso, por serem menos visíveis.” O fórum, que tem como parceiro principal a Direcção para o Desenvolvimento e para a Cooperação do governo suíço, escolhe anualmente um máximo de doze projectos para apresentar a possíveis produtores e financiadores; um júri escolhe igualmente um projecto para receber 50 mil francos suíços (cerca de 40 mil euros).

O foco na África sub-saariana em 2014 surge na sequência de um primeiro apoio em 2012 à África francófona – que coincidiu, aliás, com uma retracção da França, o país mais activo no financiamento estatal do cinema africano, com uma política de suporte e sustentação da francofonia de assinalável impacto. Foi das antigas colónias francesas, sustentadas por fundos entretanto descontinuados como o Fonds Sud Cinéma, que surgiu toda uma geração: do Senegal, Djibril Diop Mambéty e Ousmane Sembène; do Mali, Souleymane Cissé; do Burkina-Faso, Idrissa Ouédraougo – e mesmo cineastas dos PALOP, como o guineense Flora Gomes, beneficiaram com as estruturas francesas. Mas mesmo esta geração, que procurava fazer a ponte entre África e o “primeiro mundo” ocidental, não criou descendência. O mauritânio Abderrahmane Sissako pode continuar a filmar (Timbuktu está este ano na competição de Cannes, ver trailer), mas o único cineasta africano que tem mantido produção regular é o chadiano Mahamat Saleh Haroun – também ele graças a apoios franceses.

Não há salas de cinema

"O que nos dizem os cineastas é que as condições de vida, de trabalho, de economia, são impossíveis". Kate Reidy, directora do festival Black Movie.

Kate Reidy, programadora e directora do festival suíço Black Movie, é peremptória: “Na maioria dos casos, os filmes africanos não conseguem ser feitos sem financiamento europeu. Precisam de interesse do Ocidente para existirem e serem divulgados.” Atenta à produção do continente africano, a programadora australiana abre excepções para países que conseguiram criar estruturas quase industriais: a África do Sul, “que tem uma indústria e uma influência ocidental muito claras”, e a Nigéria, cuja produção “faça-você-mesmo” levou o país a ser conhecido como “Nollywood”, mas, feita exclusivamente a pensar no público local, é impossível de exportar.

São as excepções num continente onde pensar em indústria de cinema ou política cultural pode ser utópico. Kate Reidy: “O que nos dizem os cineastas é que as condições de vida, de trabalho, de economia, são impossíveis. Não é que não queiram filmar; simplesmente não têm condições, não há apoios, e não há salas de cinema.” O Black Movie, inicialmente dedicado exclusivamente ao cinema africano, abandonou essa abordagem já há vários anos para se tornar num festival de cinema independente global, porque “a produção [africana] deixou de ser suficiente e a qualidade foi declinando. Não havia filmes bons que chegassem”.

Fernando Vendrell, que produziu O Herói de Zezé Gamboa (2004), um dos filmes africanos de língua portuguesa que fez melhor carreira internacional, aponta as contradições de um sistema de apoios que força os filmes a financiarem-se inteiramente no estrangeiro e, no processo, reforça o desinteresse dos países africanos. “Os fundos do Instituto do Cinema e Audiovisual [ICA] são muito importantes para o cinema africano de língua portuguesa, mas têm o efeito perverso de fazer com que os estados não se sintam responsáveis pelos filmes. Que ficam muitas vezes como património dos institutos de cinema locais, mas nem sempre tiveram o seu apoio.”

No caso português, o apoio ao cinema africano tem sido realizado ao abrigo de acordos de colaboração e co-produção com os países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP), mas cuja visibilidade pública tem sido reduzida (actualmente, o ICA destina 500 mil euros às co-produções com “países de língua portuguesa”, abertas também ao Brasil). Muitas destas co-produções não chegaram às salas portuguesas - caso de O Grande Kilapy de Gamboa (David & Golias, 2012), de Por Aqui Tudo Bem da angolana Pocas Pascoal (LX Filmes, 2011, mostrado a concurso no IndieLisboa), ou do primeiro filme de Sol de Carvalho, O Jardim do Outro Homem (Fado Filmes, 2006). Quando chegam, o impacto tem sido inexistente – os casos mais recentes foram Virgem Margarida, de Licínio de Azevedo (Ukbar Filmes, 2012), ou A República di Mininus, de Flora Gomes (Filmes do Tejo, 2011), ambos estreados em 2013 perante a indiferença do público.

Se é verdade que muitos destes são filmes de visível fragilidade artística, também é verdade que esbarram num mercado cuja formatação comercial não parece interessado em abrir-lhes espaço. Fernando Vendrell faz notar que muitas vezes o apoio ocidental a estes projectos se concentra no trabalho de pré-produção, desenvolvimento e rodagem, mas não abrange a difusão e distribuição. “Há muitas dificuldades de distribuição, filmes que não chegam a estrear nos seus próprios países. Mas alguns deles dão duas ou três vezes a volta ao mundo [no circuito de festivais], e acabam por ter um impacto internacional muito maior do que uma deslocação de uma comitiva a Washington...”

Vendrell evoca, de caminho, a incompreensão dos decisores ocidentais ao serem confrontados com estes filmes: uns exigem dos projectos africanos uma imagem turística vendável, de exotismo tribal, outros insistem em cadernos de encargos de cidadania e desenvolvimento que correm o risco de tornar os filmes em meros veículos de pedagogia social. Enquanto isso, as estruturas de produção que começam a surgir, por exemplo em Angola, acabam por se dirigir muito mais para uma dimensão televisiva que reproduz de modo mais ou menos linear os modelos ocidentais.

Em Locarno, Ananda Scepka recusa quaisquer cadernos de encargos e define a escolha do comité de selecção Open Doors, que analisou este ano 190 projectos para reter apenas doze, como guiada pela “força artística” do projecto. Para além dos projectos dos PALOP, foram seleccionadas ainda obras da África do Sul, Etiópia, Gana, Uganda e Zâmbia. “Locarno apoia um certo tipo de cinema de autor, e o Open Doors insere-se inteiramente nessa visão,” explica Scepka. “Contrariamente a outros fóruns, que exigem um mínimo de orçamento garantido, estamos abertos a projectos que ainda estejam em desenvolvimento. Alguns levam mais tempo do que outros, uns chegam a Locarno com o dinheiro quase fechado, para outros o financiamento começa aqui. Apoiamos obras que cremos serem capazes de encontrar exposição, mas quando as seleccionamos ainda está tudo por fazer. Não temos numerus clausus por países, nem escolhemos politicamente, mas como em todos os fóruns de co-produção temos que levar em conta se o projecto é realista e praticável.”

E apesar de todas as dificuldades, há uma razão para o foco do Open Doors estar este ano nesta parte do globo. “Sentimos que há uma nova geração muito dinâmica, que pega no touro pelos cornos, tem vontade de fazer coisas e procura os meios de as fazer. Já era o caso da África francófona, mas notámos uma grande actividade em muitos países, com pólos de atracção maior.” Kate Reidy confirma: “Nos últimos quatro ou cinco anos tem havido filmes em regime de auto-produção, documentários feitos a uma escala extremamente pequena, mas que são por vezes de extraordinária qualidade.” É por essa escala pequena que a programadora vê o futuro, mesmo admitindo que não é possível prevê-lo. “A economia mundial e a tecnologia estão a mudar tão depressa que isso tem uma influência muito grande no modo como o cinema se vai transformar e sobreviver. As fronteiras que existiam entre culturas nacionais estão a diluir-se, o modo como as pessoas contam histórias está a tornar-se cada vez mais difícil de definir.” 

Fonte: Cultura P


Almeida Garret - crônica

por António Nametil Mogovolas de Muatua (António Matabele) - Moçambique

... os frutos da educação são demorados, mas perenes na vida de um País! Invistamos, então, sem receios, nesta indústria de transformação do Homem!

 Almeida Garret,
 Os meus amigos – principalmente os mais jovens – dirão, com cargas de razão: “este velhote pirou de vez, coitado já nos deixou! A que propósito é que agora vai nos falar de Almeida Garrett?”.

Os que assim me sentenciassem teriam razão se a arte tivesse fronteiras, idade, não fosse ela perene e de validade internacional.

O nome da pessoa que dá título a esta reflexão foi um grande dramaturgo português, no período em que as artes e os saberes daquele povo da Península Ibérica fizeram luz neste mundo sempre tendencialmente cada vez mais globalizado.

De seu nome completo, João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, foi um escritor e dramaturgo romântico, orador, par do reino, ministro e secretário de estado honorário, nasceu a 4 de Fevereiro de 1799 e faleceu a 9 de Dezembro de 1854.

        Mas não me refiro ao Almeida Garrett homem. Falarei, com muita nostalgia, do Cine Teatro existente (?) em Nampula e que tinha (tem?) o seu nome.

        Esta coisa de as vicissitudes da vida nos levarem para longe da terra aonde nosso umbigo está enterrado, obriga-nos a padecermos de saudades incuráveis das pessoas, dos odores, dos sabores, das coisas que testemunharam a nossa infância, criancice, meninice e adolescência. Era esta nostalgia levada ao extremo, ao paroxismo do insuportável, que levava os escravos a morrerem de uma doença catalogada nos dicionários do Brasil – país maior recipiente de escravos naquele tempo – de banzo. Morriam de banzo porque apesar de o escravo ser fisicamente possante era, segundo a segundo, consumido e corroído por grande saudade da sua terra natal da qual fora arrancado abrupta e violentamente.

        De banzo não padeço, mas sinto grande falta das gentes e do ambiente nampulense no qual eu me auto-construi.

        Desde os concursos de música promovidos pelo Padre Agostinho Rodrigues, durante os quais, aos Domingos, cantadores anónimos da nossa meninice se enchiam de coragem e ao palco subiam para mostrarem os seus dotes adormecidos de cançonetistas.

Falo também das peças de teatro preparadas à pressa lá no bairro e que íamos apresentá-las ao Domingo no Almeida Garrett, depois das 10,00 horas e que terminavam, impreterivelmente, antes das catorze, porque o dono da sala – que nos emprestava a custo zero – precisaria dela para passar os seus filmes da matiné das 17,30 horas, para maiores de 12 anos de idade.

        Naquela sala, sempre cheia, nas matinés aos Domingos à tarde, aprendemos a saber apreciar a chamada sétima arte, vendo desde filmes de grande qualidade até os medíocres do tipo “sete contra o mundo” e “gringo não perdoa”, “cada bala tem um nome”.

        E como não me recordar do Rijo, jogador de futebol do Benfica de Nampula, que era zeloso porteiro e arrumador da sala de cinema, que fingia não se aperceber que em algumas cadeiras os pequenos espectadores se sentavam aos pares, porquanto por serem namorados achavam que aquele era o melhor momento para trocarem algumas intimidades na escuridão da exibição dos filmes.

        Mas relembrar Almeida Garrett é lançar um brado de socorro, pedindo aos gestores de cúpula das actividades culturais, lúdicas e de carácter artístico em Moçambique, para que, em conjunto, revejamos os actuais paradigmas de educarmos os nossos filhos para saberem amar a beleza destas manifestações que alegram o espírito do Homem.

        Com efeito, neste mundo sempre globalizado, depois de bem e muito trabalhar para desenvolver o País, o Homem moçambicano precisa de se divertir lendo bom livro, vendo bom cinema, assistindo bom teatro, dançando ao som de boa e alegre música, apreciando arte de qualidade, enfim, encontrando ambientes edificantes para se descontrair e retemperar energias para novas jornadas de trabalho.

        Que os muitos espaços Almeida Garrett espalhados pelo País voltem a exercer a sua função essencial para a felicidade do Homem do nosso País. 

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João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett e mais tarde 1.º Visconde de Almeida Garrett, (Porto, 4 de fevereiro de 1799 — Lisboa, 9 de dezembro de 1854) foi um escritor e dramaturgo romântico, orador, par do reino, ministro e secretário de estado honorário português. Grande impulsionador do teatro em Portugal, uma das maiores figuras do romantismo português, foi ele quem propôs a edificação do Teatro Nacional de D. Maria II e a criação do Conservatório de Arte Dramática.

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Pesquisa visual e postagem por Oubí Inaê Kibuko, para Cineclube Afro Sembene e Fórum África. 

Política cultural em debate


Política Cultural, segundo a Wikipedia, pode ser entendida como um conjunto de iniciativas e medidas de apoio institucional sistemático desenvolvido pela administração pública ou instituições civis, grupos comunitários e empresas privadas na perspectiva de orientar o reconhecimento, a proteção e o estímulo ao desenvolvimento simbólico material e imaterial determinada sociedade ou grupo social.

Em uma ação do poder público, uma política cultural se traduz por operações, princípios e procedimentos administrativos e orçamentários com características de instruções e diretrizes, tanto de ação direta quanto de fomento, assim como de meios regulatórios apropriados ao setor - normas jurídicas que regem as relações entre os sujeitos e os objetos culturais - em modelos e rearranjos ideológicos e econômicos com vistas à conservação de patrimônio e a democratização da cultura, desde o consumo e a produção de bens e serviços até a participação e a criação de processos culturais, em modalidades com objetivos diferentes - excludentes ou cumulativos - e por vezes incompatíveis.

A partir de diferentes modos de compreensão da significação dessas iniciativas e, por conseguinte, pelos respectivos modos de proposição e agenciamento das mesmas é possível verificar o comprometimento do Estado com a cultura nos diferentes contextos sociais, no que se refere à democratização do acesso e da fruição e a diversidade da oferta de bens e serviços culturais.


A POLÍTICA CULTURAL EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO

Por Ricardo Oriá

Grande parte dos estudos e análises sobre o processo de globalização têm sido feitos sob a ótica da economia. Esquece-se, portanto, uma dimensão importante desse processo no tocante aos aspectos sociais e culturais dele advindos e seus reflexos na vida das pessoas e na redefinição da identidade dos países, sobretudo com o aparecimento de novos suportes de informação disponíveis, a exemplo da Internet, TVs a cabo, multimídia, entre outros.

O fenômeno da globalização traz consigo, em seu discurso, a tentativa de se forjar um mundo homogêneo e unívoco. Nesse estágio do capitalismo que estamos vivenciando, a globalização pretende tornar todos iguais e homogêneos, uma "aldeia global"   que não respeita as singularidades e especificidades locais e regionais e que não reconhece que a grande riqueza da Humanidade é a sua diversidade étnico-cultural.

Contrapondo-se a esse discurso falacioso e enganador, consideramos que, neste mundo de economia globalizada, pretensamente "sem barreiras", a cultura  constitui, ainda, o elemento mais importante de afirmação da identidade nacional. É ela, em última instância, o aspecto fundante que diferencia um país de outro.

Este texto pretende, pois, suscitar uma discussão sobre o mundo da cultura e de como se pensar uma política cultural em tempos de globalização econômica. Para tanto, faremos uma breve digressão sobre a historicidade do conceito de cultura e a nec essidade de delinearmos uma política cultural para o País ensejadora do exercício da cidadania a todos os brasileiros.

Cultura além das belas-artes e da erudição

Etimologicamente a palavra "cultura" deriva de "colere" que, por sua vez, significa cultivar, habitar, criar e preservar. Nas sociedades da Antiguidade Oriental, o termo associava-se ao cuidado da terra, referindo-se ao manejo que o homem tinha da natureza.

O filósofo grego Aristóteles, na Antiguidade Clássica, já definia cultura como aquilo que não é natural, que não pertence ao mundo da natureza ou não decorre de leis físicas e biológicas. Posteriormente, o Iluminismo, movimento intelectual do século XVIII, colocou a razão como tema central de sua teoria e, a partir de então, o homem passou a ser visto como animal racional. Já no século XX, "emerge o tema da cultura e o homem passa a perceber-se como um animal cultural."

Atualmente, os antropólogos e cientistas sociais consideram que a cultura refere-se ao modo de vida de um povo, em toda a sua extensão e complexidade. Assim, o conceito de cultura procura designar uma estrutura social no campo das idéias, dos símbolos, das crenças, dos costumes, dos valores, artes, linguagem, moral, direito, leis, etc., e que se traduz nas formas de pensar, sentir e agir de uma dada sociedade.

No entanto, ainda hoje, a palavra "cultura" tem sido empregada cotidianamente como sinônimo de erudição ou para designar o mero acúmulo de conhecimentos. Atualmente, graças à contribuição da Antropologia, o moderno conceito de cultura não está mais restrito ao campo das belas-artes, da filosofia e da erudição, tão ao sabor das elites letradas deste país. Devemos compreender  "cultura" como o conjunto de manifestações espontâneas, que se moldam no cotidiano das relações sociais de uma determinada coletividade que, uma vez incorporadas ao seu modus vivendi, a caracteriza e a distingue das demais.

A "Conferência Mundial sobre Políticas Culturais", realizada no México em 1982, declarou, acertadamente, que "a cultura hoje pode ser considerada o conjunto dos traços distintivos, espirituais e materiais, intelectuais e afetivos, que caracterizam a sociedade ou um grupo social. Além das artes e das letras, engloba modos de vida, os direitos fundamentais do ser humano, os sistemas de valores, as tradições e as crenças."

Considerando a cultura como todo um modo de vida na acepção antropológica mais ampla, podemos tirar uma primeira e importante conclusão, qual seja, a de que  a cultura deve ser pensada como direito, criação e fio condutor que perpassa os diversos aspectos da vida humana e todas as áreas e ações da sociedade e dos governos 2.. Assim, um outro conceito de cultura ganha significado, onde a mesma deixa de ser encarada como concessão do Poder Público, como adereço, algo diletante, "perfumaria" e privilégio de poucos. A Cultura hoje deve ser vista sob a ótica da Cidadania.

Entender a cultura como direito de cidadania implica reconhecer que somos sujeitos históricos e culturais, produtores de cultura e, como tal, temos direito de criar, inventar, produzir, bem como de ter acesso aos bens culturais de nossa sociedade e à memória coletiva, esteio de nossa identidade cultural.

Na verdade, a cultura não se reduz ao mundo dos eventos e do efêmero, ao campo das artes e da erudição e às leis do mercado, como hoje apregoam os neoliberais de plantão. O mundo da cultura diz respeito à totalidade das experiências sociais e, neste sentido, interessa a todos como direito de cidadania. A filósofa e ex-Secretária de Cultura do Município de São Paulo, Marilena Chauí, tem toda a razão ao afirmar que: "A cultura não se reduz ao supérfluo, à sobremesa, ao mundo oficial, mas se realiza como um direito de todos os brasileiros, a partir do qual eles se diferenciam, entram em conflito, recusam ou aceitam modelos, criam alternativas, tornam-se sujeitos da história: autores de sua própria memória."

Consideramos, pois, que Cultura é direito de cidadania, devendo, portanto, ser assegurada a todos os brasileiros, indistintamente. Desde a "Declaração Universal dos Direitos do Homem", da Organização das Nações Unidas (ONU), de 1948, os direitos culturais foram erigidos à categoria de direitos fundamentais da pessoa humana e, como direito, podem e devem ser exercidos e exigidos quando necessário: "Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do processo científico e de seus benefícios." (Artigo XXVII da Declaração Universal dos Direitos do Homem).

Mas o que vêm  a ser Direitos Culturais?  Ou mais ainda, o que significa Cidadania Cultural?

Por uma Política de Cidadania Cultural

Na moderna teoria democrática, a noção de Cidadania está fundamentada na definição legal de direitos e obrigações que a constituem e compreende os direitos e deveres civis, políticos e sociais  . No âmbito dos chamados direitos sociais, encontram-se os culturais. Os direitos culturais são aqueles direitos que o indivíduo tem em relação à cultura da sociedade da qual faz parte, que vão desde o direito à produção cultural, passando pelo direito de acesso à cultura até o direito à memória histórica. Esse conjunto de direitos integra a concepção de Cidadania Cultural. Vejamos, pois, cada um de per si:

O direito de produção cultural parte do pressuposto de que todos os homens produzem cultura. Todos somos, direta ou indiretamente, produtores de cultura. É o direito que todo cidadão tem de exprimir sua criatividade ao produzir cultura.

O direito de acesso ou fruição à cultura pressupõe a garantia de que, além de produzir cultura, todo indivíduo deve ter acesso aos bens culturais produzidos por essa mesma sociedade.
Já o direito à memória histórica, como parte dessa concepção de  Cidadania Cultural, indica que todos os homens devem ter acesso aos bens materiais e imateriais que representem o seu passado, a sua tradição, a sua História. O direito à memória  . encontra-se consubstanciado nos bens culturais pertencentes ao Patrimônio Histórico da sociedade.

Além desses direitos anteriormente explicitados, podemos acrescentar a esse princípio da Cidadania Cultural o direito à informação como condição básica para o seu exercício e o direito à participação nas decisões públicas sobre a cultura, por meio de conselhos e fóruns deliberativos, onde o cidadão possa, através de seus representantes, interferir nos rumos da política cultural a ser adotada, distanciada dos padrões do clientelismo e da tutela que, geralmente, norteiam as políticas públicas no País ..

Pioneiramente, na atual Constituição Brasileira, o legislador constituinte teve a sensibilidade política de enquadrar no rol dos direitos fundamentais os chamados direitos culturais e de exigir que o Estado garanta a todos os brasileiros o exercício dos mesmos. Isto é evidente a partir da leitura do art. 215, caput, da Carta Política  de 1988: "O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais."

No entanto, a dicotomia entre o "Brasil legal" e o "Brasil real" está também presente no campo da cultura. Embora seja considerado um avanço legal o fato do reconhecimento constitucional aos direitos culturais, ainda estamos muito aquém da efetiva realização do mandamento  constitucional. Muito ainda precisa ser feito para que, de fato, se democratize o acesso à cultura e aos bens culturais a todos. Numa sociedade profundamente marcada por conflitos, contradições e desigualdades sociais, a cultura ainda se constitui um privilégio.

Por sua vez, a falta de uma política cultural consistente e eficaz por parte do Poder Público, aliado aos parcos recursos financeiros destinados ao setor, não tem contribuído para uma real democratização de nossa cultura.

No rol das políticas governamentais, a cultura não tem sido prioridade, nem tampouco nos discursos e ações programáticas dos diferentes partidos políticos. Até mesmo partidos políticos ditos "progressistas" têm uma compreensão equivocada e distorcida da problemática cultural no País. Acreditam que a população brasileira tem outras necessidades mais prementes (saúde, educação, transporte, etc) que precisam ser urgentemente atendidas em detrimento da cultura. Esquecem, no entanto,  o papel transformador desta no desenvolvimento sócio-econômico do País e como instrumento possibilitador da melhoria da qualidade de vida da população. Como bem acentua a socióloga argentina Beatriz Sarlo  , o tema da arte e da cultura ainda se encontra restrito aos especialistas e ao debate intelectual de acadêmicos e, praticamente, ausente da agenda política dos partidos e da sociedade em geral.

Recentemente, a Organização das Nações Unidas (ONU) publicou um estudo mostrando que uma parte das situações de fome no mundo era em decorrência da falta de alimentos ao alcance dos indivíduos, mas uma outra parte- e uma parte bastante considerável- estava associada à falta de discernimento cultural, de tradição cultural dos hábitos alimentares. Neste sentido, para se contrapor ao discurso falacioso de que é preciso primeiro "matar a fome" dos brasileiros, essa pesquisa atesta que "cultura também enche barriga".

Em meio ao processo de globalização que estamos presenciando, colocamos algumas questões norteadoras para a definição de uma política para a área da cultura em nosso País, que possibilite a afirmação de nossa identidade e cidadania.

Pensamos, pois, que uma política cultural para um Brasil que se pretende moderno e democrático há de pautar-se  pela idéia motriz de que a cultura, que é produzida coletivamente, deve constituir-se num   direito coletivo, também, a ser apropriado por todos os cidadãos indistintamente. Portanto, impõe-se  que se criem meios e mecanismos eficazes para que o cidadão comum tenha direito à cultura, tenha direito à memória coletiva e tenha condições de se apropriar dos bens culturais que, normalmente, vêm sendo monopólio dos setores dominantes da sociedade. Não se trata, tão-somente, de valorizar as manifestações populares, o folclore, o artesanato, entre outras formas de cultura popular. Tudo isso é importante, mas consideramos que o caminho a ser trilhado é o de democratizar o acesso à cultura a todos os segmentos sociais. Só assim estaremos contribuindo para que os privilégios de classe numa sociedade capitalista como a nossa, marcada por profundas desigualdades e contradições,  sejam diminuídos e se democratize, de fato, o acesso aos bens culturais.

Hoje, no limiar de um novo século e milênio, temos a plena convicção de que, no Brasil, o alcance da plena cidadania passa necessariamente pelo exercício dos direitos culturais. Somente a partir do momento em que todos os brasileiros, como cidadãos e não meros consumidores, passarem a usufruir os bens culturais é que se inicia o processo de construção de uma nova identidade, assentada na diversidade regional e na pluralidade de nossas matrizes étnicas.

Fonte: Tripod

A importância dos cineclubes na formação de espaços e cidadania cultural


Cineclubes são espaços democráticos, sem fins lucrativos, que estimulam o público a ver e discutir o cinema. E, através dele, refletir sobre a realidade. O Cineclube dá acesso as mais diferentes cinematografias e suas propostas estéticas e narrativas, além disso, valoriza de forma única a experiência da difusão/exibição...

A exibição da obra cinematográfica escolhida não tem base em critérios comerciais, mas, sim, critérios artísticos, culturais, sociais e que fazem refletir. Somado a isso o público se envolve diretamente na escolha das obras a serem vistas. Esses filmes podem ser de curta, média ou longa-metragem e não tem intenções comerciais de exibição. Os Cineclubes são espaços de fruição, pesquisa e crítica cinematográfica. Além disso, primam pelo direito do público no acesso ao audiovisual e na experiência compartilhada em assistir do cinema.

Caracteriza-se por ser um Cineclube ações e espaços que possuem uma sessão periódica com data e local, normalmente fixos, com finalidade cultural, inclusiva e estrutura democrática.

Os objetivos do Cineclube, entre outros, são refletir sobre a linguagem do cinema, possibilitar a experiência fílmica como ferramenta de educação, estimular o desenvolvimento do pensamento crítico e viabilizar ações concretas de intercâmbio entre cineclubistas, realizadores, pesquisadores, críticos e pessoas que se interessam pelo cinema como arte transformadora.

Os Cineclubes nasceram como resposta às necessidades que as salas comerciais não atendiam, ou seja, a fruição do filme e a democratização do acesso. Assumiram, assim, diferentes práticas conforme o desenvolvimento das sociedades em que se instalaram. Assumiram uma forma de organização institucional única que os distingue de qualquer outra. O trabalho realizado pelos Cineclubes diz respeito a exibir cinematografias que não estariam disponíveis ao público de outra maneira. No Brasil o Cineclubismo inicia oficialmente em 1928, com o Chaplin Club no Rio de Janeiro. Com o passar do tempo tantos eram os espaços que foram necessários manter essa rede que se formava, diante disso, foi criado o CNC – Conselho Nacional de Cineclubes, em 1961 (hoje denominado Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros), uma entidade que busca o desenvolvimento das políticas públicas para o audiovisual, participando das ações e propondo espaços para a expansão da ação Cineclubista.


Material de apoio:

sexta-feira, 9 de maio de 2014

17 de maio sessão especial Dia da África o Cineclube Afro Sembene e a Cojira exibem os filmes: Fogata e Presidentes Africanos 1 no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo


25 de Maio: Dia da África
Comemora-se a 25 de Maio, o Dia de África, a data foi instituída pela “Organização da Unidade Africana” em 1963. Em Julho de 2002, esta organização foi substituída pela “União Africana”. A União Africana (UA) foi fundada em 2002 e é a organização que sucedeu a Organização da Unidade Africana. Baseada no modelo da União Européia (mas atualmente com atuação mais próxima à da Comunidade das Nações), ajuda na promoção da democracia, direitos humanos e desenvolvimento na África, especialmente no aumento dos investimentos estrangeiros por meio do programa Nova Parceria para o Desenvolvimento da África. Seu primeiro presidente foi o presidente sul-africano Thabo Mbeki.

Objetivos da União Africana
A União Africana tem como objetivos a unidade e a solidariedade africana. Defende a eliminação do colonialismo, a soberania dos Estados africanos e a integração econômica, além da cooperação política e cultural no continente.

Membros
A União Africana possui 53 membros, cobrindo quase todo o continente africano. São eles: África do Sul, Argélia, Angola, Benim, Botswana, Burkina Faso, Burundi, Cabo Verde, Camarões, Chade, Congo Brazaville, Costa do Marfim, Djibouti, Egito, Eritreia, Etiópia, Gabão, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Lesoto, Libéria, Líbia, Malawi, Mali, Maurícias, Mauritânia, Moçambique, Namíbia, Nigéria, Quênia, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Ruanda, Saara Ocidental, São Tomé e Príncipe, Senegal, Serra Leoa, Seychelles, Somália, Suazilândia,  Sudão, Tanzânia, Togo, Tunísia, Uganda, Zâmbia, Zimbabwe.

Membros suspensos:
Guiné - suspenso depois do Golpe de Estado de 2008.
Madagáscar - suspenso depois do Golpe de Estado de 2008.
Níger - suspenso depois do Golpe de Estado de 2010.
Fonte: Fundação Agostinho Neto

Sessão Especial Dia da África - Cineclube Afro Sembene e Cojira convidam

Em celebração a esta data importante e memorável não somente para o continente africano, mas também para brasileiros e todos os povos do mundo, a associação Fórum África realizará uma sessão especial comemorativa ao Dia da África, através do Cineclube Afro Sembene e em parceria com a Cojira que exibirão os filmes: Fogata (João Ribeiro, Moçambique) e Presidentes Africanos episódio 1 (Franklin Martins, Brasil). Esta sessão especial do Cineclube Afro Sembene, em parceria com a Cojira integra uma programação voltada para o Dia da África, que será realizada pelo Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo, em sua sede, com duas atividades, com início às 19 horas: o cineclube dia 17 e uma roda de conversa no dia 23 com personalidades do mundo político e acadêmico sobre a realidade do continente africano, na atualidade.

Fogata
Sinopse. Curta-metragem moçambicano dirigido e produzido por João Ribeiro (O último vôo do flamingo). Explora a relação Homem/Mulher na sociedade camponesa e também como eles encaram a morte e as suas conseqüências. É uma adaptação do conto "A Fogueira" do escritor Mia Couto. Elenco: Adérita Manjate e Chaúque Nalelane. Tempo 20 minutos, Drama, Colorido, Moçambique, 1992, suporte DVD, legendado em português.

Sobre João Ribeiro:
Nasceu em 29 de agosto de 1962, em Mocuba, uma pequena cidade da província da Zambézia em Moçambique. É Realizador e Produtor de cinema e televisão. Filho de pais cabo-verdianos, João Ribeiro foi professor de Educação Física na cidade de Quelimane onde cresceu e viveu até 1987. Em Quelimane ele foi também Delegado Provincial do INC (Instituto Nacional de Cinema) gerindo um conjunto de 5 salas de cinema espalhadas pela província e onde, para além do hobby da fotografia começa a trabalhar com vídeo. Em 1987 muda-se para a cidade de Maputo onde, ainda no INC, foi Chefe do Arquivo de Filmes e mais tarde Coordenador de Produção. Parte para Cuba em 1989 onde se forma em Realização e Produção na Escola Superior de Cinema e Televisão de San António de los Baños (1991). Como trabalho de conclusão de fim de curso (o temível TCC) realiza o seu primeiro curta-metragem: Fogata. (...) Na Televisão, João Ribeiro passou por três dos mais importantes Canais Nacionais (TVM - Televisão de Moçambique, canal público; STV - Soico Televisão e TIM - Televisão Independente de Moçambique, canis privados) onde foi responsável pelo processo de instalação, modernização, criação de conteúdos nacionais, produção de programas e eventos tendo chegado a desempenhar funções de Diretor de Produção, Diretor Operacional, Diretor Geral e Administrador. De regresso ao Cinema, realiza em 2010 a sua primeira longa metragem de ficção intitulada O Último Vôo do Flamingo que teve a sua estréia no Pavilhão do Mundo no Festival de Cinema de Cannes e foi selecionado para os maiores Festivais de Cinema do Mundo tornando-se no primeiro filme Moçambicano a ter estréia comercial além fronteira (Portugal, Brasil, Espanha, França).

Presidentes Africanos
Sinopse: Após percorrer 13 dos maiores países africanos e entrevistar cada chefe de Estado local, o jornalista e ex-ministro do governo Lula, Franklin Martins é o apresentador da série “Presidentes Africanos”, especialmente produzida para tv. A série de documentários retratam aspectos históricos, políticos e econômicos dos países visitados. Cada nação é tema de um episódio. As reportagens são intercaladas com trechos da conversa com o líder local. Para conseguir convencer tantos presidentes a recebê-lo, Franklin contou com uma ajuda de peso: o ex-presidente Lula, cujo instituto dá apoio institucional à série.

Sobre Franklin Martins
Franklin de Sousa Martins (Vitória, 10 de agosto de 1948) é um jornalista político brasileiro. Foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom) do Brasil durante o mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva até dezembro de 2010.


Sobre o projeto Cineclube Afro Sembene
O Cineclube Afro Sembene é uma iniciativa do Fórum África, entidade sem fins lucrativos, de caráter social, cultural e recreativo, que reúne africanos, brasileiros e todas as pessoas interessadas em difundir informações que melhorem o conhecimento sobre a África no Brasil, e vice-versa. O nome Sembene é uma homenagem ao escritor, produtor e diretor senegalês Ousmane Sembene (1923 — 2007), freqüentemente chamado de "O Pai do Cinema Africano". Sua jornada teve inicio em 2008, no Centro Cineclubista de São Paulo, do qual é associado. Ciente das barreiras da língua e de seu caráter formativo, a programação do Cineclube Afro Sembene prioriza filmes legendados em português. Coordenação: Vanderli Salatiel, Saddo Ag Almouloud e Oubí Inaê Kibuko.

O Cineclube Afro Sembene 2014
A proposta é fomentar a formação de repertório versátil, com sessões em dose dupla, ou seja: um filme do continente africano e um filme de um(a) diretor(a) afro-brasileiro(s), como acontece em shows e eventos internacionais que são abertos por bandas ou artistas nacionais como forma de intercâmbio e difusão cultural. Tem também um apelo retrô, em referência e homenagem aos cinemas populares, os quais até meados da década de 1990 exibiam dois filmes como meio de atrair, formar, manter seu público. “Como os cinemas estavam perdendo espectadores, logo surgiu a idéia de oferecer aos cinéfilos a sessão dupla, onde poderiam assistir dois filmes pagando por apenas um bilhete. E muito filme considerado B, não só ganhou repercussão como também se tornaram cults”, explica Oubí Inaê Kibuko, um dos coordenadores de programação do Cineclube Afro Sembene.

As sessões acontecem sempre no 3º sábado do mês, pontualmente às 19 horas, sendo a exibição do filme seguida de debate com membros da equipe realizadora ou de um comentarista convidado e outras práticas da cultura africana e afro-brasileira.

A parceria Cineclube Afro Sembene e Cojira
Em 2012 o Cineclube Afro Sembene firmou parceria com a Cojira-SP (Comissão de Jornalistas Pela Igualdade Racial no Estado de São Paulo), que manifestou disposição solidária com a proposta e se dispôs a contribuir na difusão do cinema africano ao público interessado.  A Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira) é um órgão consultivo, com participação aberta. O objetivo é auxiliar o Sindicato dos Jornalistas na atuação mais efetiva com relação à questão racial. Participa de ações tanto no âmbito específico do jornalismo, quanto em questões de caráter mais geral. A oficialização desta parceria se deu em 16/11/2013, com o retorno do Cineclube Afro Sembene, desta feita no Sindicato dos Jornalistas, após um longo e forçado jejum por falta de espaço apropriado.

Material de apoio:

Serviço


SESSÃO ESPECIAL COMEMORATIVA AO DIA DA ÁFRICA
Data: 17 de maio de 2014 - sábado - pontualmente às 19 horas
Cineclube Afro Sembene e Cojira exibem os filmes:
Fogata (João Ribeiro, Moçambique, ficção, 1992) e
Presidentes Africanos - episódio 1 (Franklin Martins, documentário, Brasil).

Dia 23 de maio de 2014 - sexta-feira - às 19 horas: 
“África em pauta”, Franklin Martins e prof.dr. Acácio Almeida (PUC/Casa das Áfricas) conversam com o público sobre a realidade do Continente Africano, na atualidade. 

Local: Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo
Rua Rego Freitas nº 530, sobre-loja
Próximo a Igreja da Consolação/metrô República;
Entrada franca.

Informações:
www.cineclubeafrosembene.blogspot.com.br
Email: cineafrosembene@gmail.com
www.cojira.wordpress.com - www.sjsp.org.br - e nas Redes Sociais 

Realização: Fórum África
Parceria: Cojira/Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo 
Apoio: Cabeças Falantes


Pesquisa, montagem de imagens e redação Oubí Inaê Kibuko para Fórum África e Cineclube Afro Sembene.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Coletivo Negro USP visita haitianos em São Paulo

Apenas um relato. 1º de maio de 2014 - Dia do Trabalhador. Planejara ir a 24ª Caminhada Ecológica da Cidade Tiradentes, com saída marcada para as 7, se não tivesse acordado quase às 9 horas. Coisas daquele famoso “mais 5 minutos” quando acordamos 5:50 com o despertador berrando. Pretendia conhecer, fotografar a tal caminhada (a qual nunca fui), rever possíveis amigos, semear novas amizades e de lá ir para a cidade. Estréias, festivais, mostras de cinema não chegam nas Cohab’s. Apenas politicagens, oportunismos, paternalismos assistencialistas. Por essas e outras o centro atrai muitos. Mas, aqui na base, onde a pirâmide é inversa e o desenvolvimento é lento, ainda há muito por fazer e devemos marcar presença nessas raras iniciativas culturais. No Brasil não temos furacões, maremotos, nevascas, terremotos; temos os políticos, as elites maquiavélicas, os donos de tudo às custas dos mais fracos e divididos.

Um encontro casual às vésperas do preparatório 25 de maio, Dia da África, no sugestivo Centro Cultural Banco do Brasil, após a sessão de Njinga - A Rainha de Angola, com alguns integrantes do Coletivo Negro USP e coletivos de outras regiões, formados em sua maioria por estudantes. Troca de impressões sobre o filme e coincidente informação de que o grupo iria depois de um rápido almoço no Biyou'Z Restaurante Afro se encontrar com outros membros dos coletivos na Praça da Sé para visitar a Missão Paz, da Paróquia Nossa Senhora da Paz, na Rua do Glicério, afins de conhecer de perto e de ambas as partes, a situação dos refugiados haitianos em São Paulo. E assim levantar informações e oferecer ajuda humanitária dentro das nossas possibilidades e alcances, tanto coletivo quanto individual. Afinal, os noticiários da mídia oficial não são plenamente confiáveis. Ainda mais quando o assunto tem recorte racial em ano político, os haitianos são apaixonados pela seleção brasileira e a xenofobia está mostrando os seus tentáculos.

Há momentos e situações em que é melhor ir em grupo do que sozinho. Parece que nossos pensamentos solidários foram captados por parabólicas ancestrais. Nos auto-convidamos, caso não houvesse impedimentos institucionais e lá fomos. Devido ao avançado das horas, pois já passavam das 18 (o atendimento no restaurante, por estar lotado, demorou mais do que previsto), e a falta de equipamento apropriado não foi possível filmar. A alternativa foi fotografar e captar em áudio direto e de forma amadora, com o que tinha em mãos, as conversas com padre Paulo e representantes haitianos que fala português. O idioma oficial do Haiti é o Francês e falam também Crioulo e Espanhol. As questões e necessidades principais dos refugiados que estão na Missão Paz giram em torno de: leis migratórias; legislação; trabalho; documentação; alimentação; moradia; locação de imóvel; transporte; higiene pessoal; saúde; voluntários para ensino básico de português e passeios em grupos para eles saberem onde e como e qual forma confiável para se locomover em São Paulo de uma região a outra; noções e recursos auto-sustentáveis para limitar e até coibir vícios assistencialistas; supervisão e acompanhamento das ações e atividades; cadastramento de dados, etc. A presença e ajuda por parte de igrejas evangélicas, núcleos espíritas (kardecistas), ong’s e associações que atendem, sobretudo, moradores em situação de rua, como os Anjos da Noite, têm sido exemplar. Questionamentos sobre a ausência e manifestação de apoio por parte dos representantes e membros das religiões de matriz africana, mais especificamente Umbanda e Candomblé, e de entidades negras tem circulado nas redes sociais. O padre Paulo não soube informar. Se presenças e colaborações têm ocorrido não se identificam ou vem passando desapercebidas devido ao montante. O êxodo e a demora em conseguir visto é um dos fatores que tem alimentado a especulação e riscos de vida. Supõe-se que para os haitianos terem despendido cerca de 4.000U$ devem estar endividados até o pescoço e deixaram suas famílias sabe-se lá em quais condições?! Fato que aumenta o desespero e necessidade deles em encontrar trabalho remunerado, independente da função a ser exercida. Ou seja: desde que renda algum dinheiro qualquer coisa serve. Fator que serve de bandeja a interesses meramente exploratórios.

Errata: no áudio estimamos 6 horas de caminhada entre Tucuruvi ao Glicério. O padre Paulo nos informou que um grupo de haitianos, por ter errado o local, fez este percurso. Chegou a paróquia por volta do meio dia, extremamente cansados. Segundo pesquisa virtual posterior, o tempo estimado é de 2h16m, via Corredor Norte-Sul, tendo o Metrô Tucuruvi como ponto de referência. Para quem desconhece o trajeto calcula-se que eles andaram cerca de 2:30 a 3:30 horas. Por falha nossa não entrevistamos ninguém do grupo para checar esta informação.

Uma parte da gravação foi feita com Sony Icd-px312 e a outra com Nokia X2. Num total de 1h22m23s. Os arquivos estão disponíveis a quem possa interessar em fortalecer a divulgação, com os devidos créditos.

Arrisco-me afirmar que a mensagem do filme "Njinga - A rainha de Angola", centra-se no provérbio: "Quem ficar, luta até vencer".  Coletivo Negro USP visita haitianos em São Paulo. Poderiam estar ali também irmanados e devidamente identificados diversas entidades e associações negras e afrodescendentes. A lista social, política, educativa, religiosa, cultural é extensa. Os haitianos estão distantes da terra deles, bem se dizer sem lenço e sem documento, e precisando de quem lute junto com eles, por eles. Se assim for a convocação está feita. Afinal, "L'union fait la force" ("A união faz a força").


Texto e imagens: Oubí Inaê Kibuko.